LIVRO - O caso guilhotina

Capítulo I

      A cena era nauseante. E foram exatamente as náuseas que levaram meu parceiro ao banheiro assim que entramos no quarto. Um homem assassinado em sua própria casa de um modo grotesco. Nós o encontramos nu. Os pulsos amarrados na cabeceira da cama com meias de seda preta. Os órgãos genitais foram cortados e depois enfiados em sua boca. Um talho aberto de um lado ao outro na garganta exibia um horrível segundo sorriso.

Mesmo um homem forte como aquele não seria capaz de romper as amarras de seda. E ele possuía uma compleição robusta. Devia ter mais de um metro e oitenta e parecia em forma. Apenas os cabelos começando a ficar grisalhos acusavam um pouco a idade. Apesar de haver sangue por toda a cama, o resto do quarto parecia em ordem. Creio que foi degolado sem nem saber bem o que acontecia. O pobre diabo deve ter morrido lentamente engasgado com o próprio sangue ou com a perda dele pela artéria.

A aorta é a principal artéria sistêmica que sai do coração. Havia um segundo corte na altura da 12ª vértebra torácica. Foi uma incisão por precaução, também atacando a aorta. Quem fez isso não queria ter dúvidas quanto à morte desse cidadão.

Se eu pudesse escolher como morrer seguramente escolheria morrer de hemorragia. Lembrando que morrer é sempre ruim e definitivo. A hemorragia dói menos e leva a um estado de delírio interessante. Uma sonolência estranha. Morrer engasgado deve ser horrível e se for com seu próprio sangue, pior.

Depois, com calma e precisão cirúrgicas, o assassino cortou seus órgãos genitais e colocou cuidadosamente em sua boca. Vou demorar bastante para esquecer aqueles olhos arregalados diante da morte inevitável e ainda por cima naquele estado. Quem cometeu o crime teve o tempo que desejou e sabia exatamente o que queria fazer.

¾ Porra, Dumas! A gente é obrigado a ver cada coisa! ¾ Esbravejou Cláudio, depois de ter vomitado no banheiro. ¾ E logo depois do café!

¾ Você se acostuma ¾ retruquei sem dar muita atenção, ele já estava bastante envergonhado por ter passado mal para eu tripudiar. ¾ Você não mexeu em nada no banheiro? Não quero ninguém estragando as pistas por aqui!

¾  Claro que não!

¾ A perícia já está a caminho?

¾ Devem chegar a qualquer momento.

¾ Reúna todos que trabalham na casa que eu desço dentro de alguns minutos!

¾ Acho ótimo poder sair daqui!


A sós com o cadáver tentei acertar meu passo com o do assassino. Era uma questão de se colocar na pele do criminoso e da vítima e tentar seguir as pegadas.  O quarto estava em perfeita ordem, tirando é claro a cama, as roupas jogadas pelo chão e todo aquele sangue pingando do colchão. A quantidade de sangue dentro de uma pessoa é muito maior do que imaginamos bem como seu poder de manchar tudo que toca. Uma gota de sangue já é o suficiente para tingir um litro de água. Sem contar o cheiro metálico, parecido com ferrugem que impregna o ar.

O rolex de ouro permanecia sobre o criado mudo junto com a carteira. Os objetos de valor que poderiam ser roubados também pareciam estar nos seus prováveis lugares. O banheiro arrumado. A pessoa que trabalhava na casa poderia facilmente comprovar se isso era verdade. Ou a vítima conhecia muito bem o seu assassino ou achava que não corria risco algum, ou até as duas coisas. A julgar pela quantidade pequena de marcas nos seus pulsos ele foi amarrado por livre e espontânea vontade dando ao criminoso tempo e tranqüilidade para fazer o que bem entendesse. Algumas hipóteses se formavam na minha cabeça. Ainda era muito cedo para tirar conclusões. Muitas coisas precisavam ser investigadas. Não toquei em nada esperando os especialistas, mas já sabia o que iriam encontrar. E era isso o que me preocupava. Não acreditava que eles fossem fornecer muito mais do que eu já sabia. A única coisa destoando no quarto era que todos os quadros foram manchados com sangue. Os peritos iriam me confirmar se o sangue era dele. Mas não precisava ser gênio pra deduzir isso. O que me intrigava era o motivo que levou o criminoso a destruir todas aquelas obras.

A perícia chegou junto com a conclusão dos meus pensamentos. Deixei-os trabalhar e fui ver as testemunhas. Estavam na cozinha, na verdade as testemunhas se resumiam a uma testemunha. Apenas Cláudio e uma senhora de expressão dura e inchados olhos vermelhos me esperavam.

¾ Foi a senhora Maura que nos chamou. Encontrou o corpo quando foi acordar o patrão. ¾  Ela parecia não ouvir. Peguei um copo com água. ¾ Por favor, dona Maura, ¾ falei com toda a delicadeza tentando desviar sua atenção ¾ onde encontro açúcar? ¾ Ela apontou para uma porta no armário. Misturei um pouco na água e cheguei mais perto, puxei uma cadeira e me sentei ao lado da mulher.

¾ Dona Maura, não fique preocupada. A Senhora não está sendo acusada de nada em absoluto. Só queremos saber algumas coisas para que possamos encontrar quem cometeu esse terrível crime. ¾ Tinha que entrar no canal de comunicação da velha, era a única testemunha por enquanto. ¾ Tome um pouco disso e se acalme. Não temos pressa, tudo que puder lembrar vai nos ajudar.

¾ Meu deus! Eu nunca pensei que o Doutor Eduardo... ¾ balbuciou sem completar a frase. Os soluços voltaram e não conseguiu segurar o choro. ¾ Por favor, Dona Maura! ¾ Continuei vagarosamente, precisava da senhora lúcida. ¾ Não se desespere. Diga-me tudo o que aconteceu desde a hora que a senhora saiu de casa. ¾ Tentava acalmá-la.

Respirou fundo, tomou mais um pouco de água e continuou com a voz trêmula:

¾ Eu saio de casa às seis da manhã, pego dois ônibus e chego sempre às sete e meia. ¾  Ela refazia seu trajeto diário mentalmente, se esforçando sinceramente. Ela estava definitivamente fora do meu rol de possíveis assassinos.

¾  Não acordo o Doutor Eduardo. Ele sempre fica trabalhando até tarde. Mas hoje ele tinha me pedido para chamá-lo às nove. Acho que tinha um compromisso ou alguma coisa parecida. Cheguei aqui, comecei a fazer minhas coisas e quando fui chamar o doutor... ¾ Novamente as lágrimas. Os nervos da velha estavam nas últimas.

¾ Vamos lá dona Maura! Só a senhora pode nos ajudar! A senhora viu alguma coisa diferente na casa? Deu falta de alguma coisa? Algum objeto de valor? Um cofre? ¾ Apenas o balanço silencioso de cabeça e depois disse:

¾ Trabalho com o doutor a mais de dez anos. Conheço essa casa como se fosse a minha. Ele não tinha nada de valor aqui dentro. Só alguns quadros, mas eles estão todos no lugar, até aqueles horrorosos do seu quarto!

¾  O Doutor Eduardo ia se encontrar com alguém do seu conhecimento? ¾ Outro balançar de cabeça. ¾ Alguém mais trabalhava pra ele? Ou dormia na casa regularmente?

¾ Não, o doutor gostava muito de ficar sozinho!

Pedi para a governanta nos acompanhar pela casa. Precisava verificar todos os aposentos e principalmente seu escritório particular que eu havia visto de relance.

Enquanto isso Cláudio iria dar uma olhada na vizinhança para ver se alguém viu ou ouviu alguma coisa. As formalidades de sempre. Nunca se sabe de onde virá uma pista importante e tudo deve ser verificado com rigor.

Voltei à senhora e subimos as escadas de madeira em silêncio. Ela me apontou a porta do amplo aposento. Não precisava, eu já sabia onde era, tinha passado por ele duas vezes para chegar ao quarto principal onde o Eduardo fora assassinado.

Entrei sozinho. Dona Maura ficou na porta, cabisbaixa e chorosa. Não a culpava. Uma senhora da sua idade não precisava passar por certas coisas. A vida podia ser mais simples.

Expulsei todos os pensamentos que não tivessem relação ao morto. Precisava me concentrar para encontrar uma trilha nesse assassinato que, por enquanto, parecia sem explicações visíveis. Iria precisar espalhar o quebra-cabeças e talvez até balançar um pouco as coisas e ver se alguém escondeu alguma peça importante.

O escritório não tinha nada de extraordinário. Uma mesa confortável, o computador portátil desligado, papéis desorganizados em cima da mesa. A Janela deixava entrar uma claridade boa na sala. Ele devia passar grandes períodos ali, era uma sala muito arejada e convidativa. Um sofá amplo encostado em uma das paredes que eu podia jurar que era usado para mais coisas além de sentar. A estante com muitos livros de literatura e arte e poucos sobre advocacia. Diferente de todos os advogados que conheci, esse parecia não apreciar muito a profissão.

Foi bastante fácil descobrir a lista de clientes do Eduardo. Ela não existia. Quer dizer, havia um nome. Estava no bloco de notas. Encontro com o Alberto às 10 horas, no bar do Jóquei. Mais fácil ainda foi descobrir o telefone desse cliente. Estava na sua agenda. Tudo muito simples. Mas era um começo. Anotei alguns outros nomes da sua agenda que podiam me servir para alguma coisa. Observei atentamente o escritório todo e pude conhecer um pouco do Doutor Eduardo. Menos do que eu precisava, ainda assim algumas coisas esclarecedoras.

Era óbvio que ele não precisava de dinheiro e que não gostava da profissão. Resolvia casos simples de amigos. Sabia levar a vida sem grandes compromissos. Nada de mulher, filhos ou animais de estimação. Apenas ele, uma governanta que cuidava da casa. Valorizava a privacidade ou estaria escondendo algo? Minhas suposições teriam que ser confirmadas e creio que o seu cliente, Alberto, poderia levar essa investigação a outro ponto.

Descemos as escadas como subimos. Vagarosamente e sem trocar palavras. Cláudio já me esperava na porta.

¾ Vistoriei o resto da casa. Nada de anormal. Os carros estão na garagem e as coisas todas nos lugares. Dona Maura pode confirmar isso pra nós.

¾ E os vizinhos? ¾ Não tinha reparado o tanto de tempo que eu havia ficado no escritório.

¾ Ninguém viu ou ouviu nada. E mesmo que ele berrasse não daria pra ouvir. As casas são grandes demais.

Antes que pudesse me despedir, Dona Maura, olhando-me nos olhos, me disse:

¾ O senhor é religioso? ¾ Perguntou-me num impulso.

¾ Digamos que não acredito nem duvido.

¾ Pois isso me parece coisa do demônio! ¾ Continuou ela ¾ Eu tenho ouvido muito no rádio e na TV os pastores tirarem o demônio do corpo da pessoa pra ela não fazer o mal! E quem fez isso ao Doutor só pode estar com o demônio no corpo. ¾ Olhei para ela e para o rosto cínico do Cláudio que esperava alguma coisa brilhante da minha boca, balbuciei um simples:

¾ Quem sabe, dona Maura, quem sabe!

Saímos de lá e passei o telefone do Alberto para Cláudio marcar uma entrevista informal. Pedi para frisar que não era nada oficial e que não havia motivos, por enquanto, para tomar o seu depoimento. Estava certo que o amigo de Eduardo não se recusaria a ajudar.

No caminho de volta ao DHPP eu pensava nos demônios que deviam povoar a cabeça de Dona Maura e de tantas pessoas como ela que, ingenuamente, se deixavam levar por esses religiosos perniciosos. Me perguntava que tipo de gente inescrupulosa podia entrar nos lares simples e desenvolver idéias das mais irracionais sobre deuses e demônios, sobre pecados e infernos, sobre dádivas e dízimos?

Também me corroia a idéia de que eu devia perseguir o assassino de uma pessoa enquanto esses criminosos produtos da mídia religiosa ficavam por aí a solta dormindo com crianças e levando seus dólares na cueca. Tudo com a conivência de uma política infestada de dogmas, explorando a miséria de um povo insensato. Não era uma questão de ser contra ou a favor. Parecia mais uma questão de sobrevivência. Eles já dominam a maior parte da mídia, quanto tempo vai levar pra dominarem o estado também?

Uma pessoa que questionar qualquer dogma dessa igreja poderá ser perseguido sem a menor chance de defesa. Como se defender de pessoas que acreditam em dogmas? Que possuem a tal da fé cega? Em breve estaremos de volta a inquisição.

Sobrevivência.

Como alguém que não crê como eu viverá nesse mundo?

Pena meu salário não me permitir o luxo das filosofias. Precisava voltar a minha fria realidade.

¾ Essa conversa de demônio é coisa de louco! O que será que essas pessoas pensam?

¾ Essas pessoas pensam muito pouco, Cláudio. Elas sentem, sofrem e acreditam. Vão levando a vida e a religião é a válvula por onde escapam as desilusões. Deuses e demônios não são tão perigosos quanto os homens. Esse crime não tem nada de sobrenatural. Foi alguém que sabia muito bem o que estava fazendo.

¾ Caralho, Dumas. Você já pensou em ser escritor?

¾ Bom, nome de escritor eu já tenho... ¾ Cláudio me olhou sem entender. Continuei sem dar-lhe tempo para argumentar ¾ deixa pra lá, Cláudio!

Encostei minha doída cabeça para tentar cochilar e pensar. Cláudio não parava:

¾ Cara, você está um caco! Vai pra casa dormir um pouco e eu falo com esse Alberto!

¾ Você sabe que não durmo, ainda mais de dia e no meio de um caso.

¾ Você devia dar um tempo nessa sua vida louca. De dia polícia, de noite boêmio. O corpo não aguenta, você já não tem idade pra isso, velhinho! ¾ Cláudio caiu na gargalhada. Sempre pisava no velho calo da idade que só fazia aumentar.

¾ Cláudio, pode parar com a aula de auto ajuda. Cala um pouco a boca e me deixa pensar. E velho é a puta que o pariu! ¾ Falei com humor mas sabia que a idade estava batendo mesmo.

¾ Você manda!

¾ E pode tirar esse sorrisinho da cara.

Fechei novamente os olhos e fiz força para realmente deixar o cansaço de lado. Não queria que nada atrapalhasse meu trabalho.  Cláudio nesse ponto tinha razão. Ou eu dava um tempo nessa minha segunda pele ou ia acabar tendo um problema de saúde sério. Cristina cansou de me acusar de querer me matar. Que eu precisava ver minha filha com mais frequência e tentar arrumar a bagunça que deixei. Como sempre ela tinha razão. Como sempre eu também tinha minhas razões. Um casal onde os dois sempre estão com a razão não pode durar muito.

O problema é que estava completamente sem forças para isso, me faltava coragem para dar o primeiro passo. Ir de encontro ao meu passado recente não estava nos meus planos. Nem qualquer mudança.

Não estava em condições de escolher o caminho naquele momento. Deixava o barco me levar.

¾ Dumas, você pensa sobre tudo mas faz muito pouco pela sua própria vida.

¾ Estava pensando justamente sobre isso.

¾ Bom. Já é um começo. Se precisar falar e desabafar pode contar comigo.

¾ Obrigado, Cláudio. Por hora você já sabe demais.

¾ Sinto falta daquele Dumas de antes.

¾ Eu também, Cláudio. Eu também. É como você disse. A idade transforma as pessoas e nem sempre pra melhor.

Fechei novamente os olhos e encerrei a conversa. O Cláudio era a pessoa mais íntima que eu possuía e, no entanto, nem com ele conseguia me abrir.





Capítulo II 

Chegamos à delegacia antes do que eu gostaria. Entrei e fui atrás de aspirinas. Mastiguei estupidamente os comprimidos sem água e senti o seu gosto amargo.  A estupidez é sempre o jeito mais fácil de curar a ressaca. Aquela não era hora de perder tempo.

¾ Não vai dar pra almoçar. O tal Alberto pode falar com a gente já! ¾ Cláudio entrou intempestivamente na minha sala. Sua impetuosidade compensava em muito os defeitos. Respondi sem abrir os olhos.

¾ Vamos! Onde ele vai nos encontrar?

¾ No seu escritório na rua Rouxinol...

¾ Moema? Esse caso ainda vai dar muito trabalho. ¾ Levantei e o acompanhei pensativo.

¾ Que foi?

¾ Gente rica envolvida! Logo vamos ter a secretaria de segurança na nossa cola exigindo provas, prisões e outras coisas espalhafatosas. Pode apostar! Assim que a mídia entrar no jogo nossa vida vai virar um inferno e isso não vai demorar nada. Então vamos tratar de descobrir alguma coisa rápido.

Continuamos pelo corredor até a saída. A luz do dia foi como uma agulhada no cérebro. Coloquei os óculos escuros e entramos no carro. Quem conhece essa cidade sabe que sair do bairro da Luz onde fica o DHPP e ir até Moema era um caos. A Avenida 23 de Maio ficava com suas pistas irritantemente congestionadas a qualquer hora do dia.

Chegamos ao escritório de Alberto por volta das duas da tarde e nem previsão de almoço. Fomos recebidos por uma secretária que poderia estar em qualquer capa de revista. Tive que conter Cláudio com um olhar duro pra ele parar de babar em cima da garota. Ele deu de ombros e fingiu que não entendeu.

O lugar era luxuoso além das minhas previsões. Um escritório de arquitetura onde as pessoas realmente levavam a sério sua profissão. Tudo ali era de bom gosto. As cadeiras modernas em cores primárias. Grandes quadros nas paredes, tudo em perfeita harmonia. Não se via aquele emaranhado de cabos e fios telefônicos como era na DP. O ambiente era arejado e espaçoso. Entrar ali era como estar num oásis. Saímos da avenida congestionada, barulhenta além do limite e caímos num lugar agradável, com música ambiente tranqüila e pessoas educadas. Gostaria de trabalhar num lugar como aquele. O Sr. Alberto nos recebeu quase imediatamente interrompendo meus pensamentos.

¾ Os senhores podem entrar. O Sr Alberto os aguarda.

Agradecemos a moça, o Cláudio exagerando no sorriso, e entramos. Era um lugar sossegado. Achei que iria encontrar alguém que ostentaria seu status, mas não. Lá estava o sóbrio Sr. Alberto. Nos esperava em pé. Sua sala tinha uma bela estante de livros, uma prancheta de desenhos, algumas cadeiras e um sofá confortável. Nada mais simples. Um homem alto com vasta cabeleira prateada. Apesar de sua tristeza ser evidente parecia um sujeito duro. Era, com certeza, alguns anos mais velho que Eduardo.

¾ Por favor, queiram sentar-se. ¾ Havia uma fria gentileza em sua voz. Pude reconhecer no ato um homem culto e cético. Tinha encontrado alguns deles nas muitas festas em que me via metido por causa da minha ex-mulher.

¾ Sr. Alberto, sou o Investigador Dumas e esse é o investigador Cláudio. Não tomaremos muito do seu tempo. ¾ Ao apertar minha mão olhou-me nos olhos e disse:

¾ Não se preocupem com o tempo. Terei muito prazer em ajudar apesar de não saber por onde começar! ¾ Iniciou a conversa talvez querendo encerrá-la rapidamente. Ainda não havia formado uma opinião a respeito do arquiteto. ¾ Eduardo não era apenas meu advogado, mas também um amigo de longa data.

Apesar de tudo era um bom começo e uma chance de afinal começar a conhecer nossa vítima. O assassinato do Dr. Eduardo continuava uma incógnita para mim.

¾ Vamos começar pelo óbvio. O Dr Eduardo teria alguma ex-mulher ou algum inimigo potencial que pudesse querer sua morte como vingança.

¾ Olha, eu e o Edu fomos apresentados na casa de seus pais há mais de 10 anos. Desde então nos tornamos amigos íntimos e nunca ouvi nada que pudesse levantar esse tipo de suspeita. Ele nunca casou, não era homem de manter um relacionamento então desistiu disso há muito tempo. Seus amigos são seus amigos realmente. Não consigo imaginar quem possa ser um provável suspeito. Não foi simplesmente um caso de roubo? ¾ Outra vez tentando resumir a conversa.

¾ Nem a governanta nem nós demos pela falta de nada. A não ser que ele tivesse alguma coisa escondida.

¾ Impossível. Todo mundo sabia como ele vivia. Um homem com mais de 50 anos e rico como ele não precisava inventar desculpas. Muitas vezes passava por excêntrico e até gostava disso.

¾ Como assim? Excêntrico?

¾ O Edu gostava de estar com mulheres lindíssimas e jovens. Com o dinheiro que ele tinha e sua boa aparência poderia escolher quem quisesse. ¾ Fez uma pausa pra pesar se podia ou não contar o que lhe passava pela cabeça. ¾ Preferia pagar. ¾ Resolveu contar. ¾ Sempre repetia uma frase que ele ouviu não sei onde: “Não pago pra ficar com a mulher, pago pra ela ir embora!”.

¾ Jack Nicholson.

¾ Desculpe, não entendi?

¾ A frase. Foi o velho Jack que disse.

¾ Isso era bem a cara dele mesmo! Enfim, eu achava aquilo um tanto chovinista. Sabia que a vida pra ele era uma grande e boa piada! Ele gostava de aproveitá-la a cada segundo.

¾ O senhor quer dizer que ele gostava de prostitutas e piadas?

¾ ...

¾ Não é hora de esconder nada senhor Alberto. Faça um favor pra nós dois e não iremos gastar o seu tempo. ¾ Tive que ser um pouco rude. Esse não parecia o tipo um homem que se deixa envolver por ameaças. Mesmo assim tive que tentar. Ele foi até a janela novamente pensando no que poderia e no que não poderia me revelar. Voltou a seu lugar e continuou serenamente.

¾ Sim. Não há motivo pra esconder nada agora! Ele gostava de prostitutas. Somente as melhores, mais espirituosas e mais bonitas. Ele as achava a companhia mais agradável e na falta da paixão isso também era bastante seguro.

¾ Uma dessas mulheres não poderia ter se apaixonado e num acesso de ciúmes ter cometido o crime?

¾ Duvido! Elas eram escolhidas a dedo no Bahamas. Todas muito bem recomendadas e altamente profissionais. ¾ Parou de falar. Nós esperamos. Mantínhamos o ar de que poderíamos passar a tarde toda ali. Isso geralmente funciona, as pessoas não gostam de ficar muito tempo em nossa companhia. Não as culpo.

¾ Sei por que conheci muitas delas em jantares e festas onde ele aparecia. ¾ Continuou. ¾ Todas mulheres muito educadas. Nunca imaginei por que elas resolveram se tornar prostitutas.

¾ Não posso responder. As mulheres continuam um grande mistério para mim.

¾ É verdade. Quanto mais vivemos menos entendemos!

¾ O que mais?

¾ Acho que ele estava enfrentando problemas sexuais e nos últimos dias andava agitadíssimo dizendo que tinha resolvido. Eu acredito que era um começo de impotência e com os novos medicamentos ele voltara a ser o garanhão da juventude. Não entendo bem essa eterna busca do rejuvenescimento. Sinto-me muito bem envelhecendo.

¾ Você teria idéia de como eu poderia encontrar essas mulheres com quem ele saia?

¾ Eu não, mas posso indicar uma pessoa que poderá levá-los a todas elas facilmente. Vou anotar o nome.

Andou até sua mesa e escreveu um nome e um telefone. Olhei o papel curioso em conhecer a caligrafia daquele homem. Uma letra bem desenhada me mostrava o primeiro indício de caminho a seguir.

¾ Guilherme Dantas, gerente do Bahamas. ¾ Repeti os dizeres em voz alta.

¾ Isso mesmo. O telefone é esse anotado e pode dizer do que se trata que eles vão ajudá-los com certeza.

Agradeci a gentileza da entrevista e entreguei-lhe meu cartão.

¾ No caso do senhor lembrar algo relevante.

¾ Espero que vocês encontrem quem cometeu essa atrocidade. O Edu era um bom homem, do seu jeito mas era! Não merecia esse fim. O senhor me parece bastante inteligente, vai achar a direção rapidamente.

¾ Obrigado. Espero que sim!

Parei na porta pensativo e me voltei ao Alberto:

¾ Duas últimas perguntas. ¾ Esse era um truque que eu gostava de usar. Deixar a pessoa achar que havia escapado da principal questão e depois atacar de surpresa.

       ¾ Sim. ¾ Notei contrariedade na sua voz pela primeira vez. Um escorregão como se alguém o tivesse pegado em uma falta.

¾ O senhor sabe se o Eduardo colecionava obras de arte?

¾ Sim ele gostava de alguns artistas jovens e comprava quadros...

¾ Você se lembra de uma coleção em especial de obras eróticas que ficava no quarto dele?

¾ Esses quadros eram sua outra paixão! Ele me disse que havia ganhado alguns quadros de um amigo que não me recordo. Acho que era reitor de algum museu ou qualquer coisa que o valha. Os quadros são belíssimos porém ainda pouco valorizados no mercado.

Continuei em pé segurando a maçaneta da porta como quem espera mais alguma coisa.

¾ Desculpe. Não me lembro dos nomes! Apenas que era ou ainda é reitor de alguma coisa. ¾ Vi que estava deixando Alberto constrangido e isso me tirou do transe. ¾ A outra pergunta?

       ¾ Qual o negócio que vocês iriam tratar na manhã seguinte à morte do doutor Eduardo? ¾ Vi uma sombra rápida no seu semblante. Sabia que essa era a pergunta mais complicada e propositadamente a deixei por último.

       ¾ Não sei no que isso poderia ajudá-lo nesse caso.

       ¾ Um homem é morto no dia em que iria se encontrar para uma relação de negócio. Parece lógico que haja uma desconfiança da minha parte. ¾ Continuei sem tirar os olhos do Alberto que parecia desconfortável. ¾ Ainda mais sabendo que o Eduardo trabalhava muito pouco e aparentemente você era seu único cliente.

       ¾ Não vou falar sobre isso. Você tem minha palavra que a nossa reunião não tem absolutamente nada com o crime.

       ¾ Não posso forçá-lo a nada nessa nossa conversa. Talvez você tenha que ir a delegacia para comprovar isso.

       ¾ É um assunto particular e muito constrangedor. Espero que você leve em consideração.

       ¾ Veremos. Se você não tem nada a temer não há por que se preocupar. ¾ Disse com uma ponta de desconfortável ironia. Queria deixar Alberto com algumas dúvidas e um pouco de peso. ¾ Por enquanto obrigado pelas dicas. Serão de muita utilidade.


Saímos da casa mas Cláudio voltou com a desculpa que havia esquecido alguma coisa. Eu sabia que ele queria o telefone da secretária. Deixei passar essa e me fingi de morto.  Dentro do carro, enquanto esperava por Cláudio, liguei para o número que o Sr Alberto havia me passado. O gerente do Bahamas me atendeu e parecia já estar esperando meu telefonema.

Aproveitando que estávamos próximos marcamos uma conversa para a próxima hora. Era o tempo de comer alguma coisa. Minha cabeça voltava a doer e eu sabia que precisava de um pouco de energia.

       ¾ Não acredito que você saiu de lá sem saber do que se tratava o encontro. ¾ Começou Cláudio, e eu respondi sem abrir os olhos.

       ¾ É realmente um assunto constrangedor. Descobri tudo muito facilmente e ele não sabe disso. ¾ Cláudio encarou-me com uma interrogação estampada no rosto. ¾ Quando dei uma olhada no escritório do advogado li algumas anotações que estavam em cima da mesa e descobri por cima do que se tratava o caso. ¾ Continuei. ¾ Era só saber ver nas entrelinhas.

       ¾ E não tem nada com o caso?

       ¾ Ainda não sei. Para nós basta o que ele disse até agora. Ele conhecia bem o Eduardo e suas dicas podem nos colocar na pista certa. Ainda não sei o que pensar do Alberto. Mas vamos ficar de olho nesse cidadão.  

       ¾ Você realmente sabe como deixar alguém curioso. Em que caralho eles estavam metidos?

       ¾ O Alberto está se separando da mulher.

       ¾ E daí? Um caso de divórcio.

       ¾ Só que ela alega que ele é homossexual e mantém um amante há mais de dez anos.

       ¾ Caraca! ¾ Cláudio quase ultrapassou um semáforo vermelho.

       ¾ Porra, Cláudio! Olha por onde anda!

       ¾ Que merda! Quem olha não diz...

       ¾ Um caso difícil de pensão e partilha. A mulher deve estar querendo tirar as calças dele pela cabeça. O Eduardo era o único que poderia evitar o escândalo...

       ¾ Ou vazar tudo e botar pra foder. Então quer dizer que o Alberto...

       ¾ Quer dizer que o que ele faz não é da nossa conta. O que nos interessa é que tanto o Eduardo quanto a mulher do Alberto poderiam criar uma confusão na vida dele. Por que não eliminar os problemas?

       ¾ Pode ser. Vamos dar uma olhada nesse Alberto. Dar umas sacudidas e ver o que aparece.

¾ Exatamente o que você fará ainda hoje. Marca uma conversa com a mulher dele e confere qual é o grau de envolvimento do Eduardo com o caso.

¾ Moleza.

¾ Assim espero. ¾ Encerrei a conversa. ¾ Chega de perguntas e pára numa padaria pra gente comer qualquer coisa. Meu estômago vai me matar!

Paramos numa padaria que condizia com o bairro que se encontrava. Muito requinte e preços abusivos. Comemos rapidamente os americanos com cocas, sem muita conversa. Adoro junk food mas meu estômago já não era o mesmo. Mais que o estômago, Cláudio tinha um paladar um pouco mais refinado. Sanduiche não era o seu ideal de boa comida.

¾ Porra, Dumas! Nem rango decente a gente tá podendo fazer! Que merda! ¾ Foi a minha vez de rir.

¾ E eu é que estou ficando velho!

¾ Sei... Minha irmã sempre falou que seu gosto por comida ruim ia acabar com o casamento de vocês.

¾ Ela tinha razão. Meu mau gosto arruinou nosso casamento. E não foi só comida. Não dá pra recriminar. Se eu estivesse no lugar dela teria feito a mesma coisa. E a sua entrada na homicídios só aumentou a raiva que ela sentia por mim.

¾ Peraí, Dumas! Não vem colocando a culpa em cima de mim! Minha entrada na polícia não tem nada a ver com vocês! Fiz a porra do concurso duas vezes e você só dificultou minha vida!

¾ Não estou te culpando. Só dizendo que os fatos todos levaram ao final melancólico.

¾ Então você caiu na vida de novo! Merda!

¾ Está tudo bem, Cláudio. ¾  Respirei fundo soando pouco convincente ¾ na verdade nunca deixei de cair na vida e isso pesou também...



Capítulo III


Passava um pouco das três e meia quando chegamos à Av. dos Chanés. Cláudio parecia familiarizado com o lugar onde eu nunca havia entrado. Sempre adorei a vida boêmia, os prostíbulos e suas putas espalhafatosas. Mas meu nível social me permitia a pequenos luxos em lugares bem mais modestos no centro da cidade. O Bahamas era um maravilhoso palacete, com três andares bem instalados e jardins suspensos tanto fora como dentro. Minha informação é que o lugar foi idealizado por um cidadão chamado Oscar Maroni Filho. Li em alguma revista que seu sonho era fazer a Disneylandia do erotismo na cidade. Quando entrei percebi que quem escreveu o artigo não estava muito longe da realidade. O lugar podia ser chamado de parque de diversões de homens adultos. Mesmo aquela hora do dia o salão nobre se encontrava razoavelmente tomado por executivos e belíssimas garotas. Alguns haviam acabado de almoçar e conversavam a beira da piscina de carpas. A prostituição completamente institucionalizada e dentro de uma lei complacente. O que todos esses lugares, elegantes ou não, alegam é que eles oferecem diversão. Se alguma garota quer oferecer algo mais é problema dela e da outra pessoa. Delícias da democracia dos que detêm o dinheiro.


Apesar de parecer um peso pesado, o segurança que nos levou até a sala de Guilherme era educado e de fala mansa. Contou que tinha sido policial mas preferiu o emprego de segurança no clube. Era muito mais seguro e melhor remunerado. Olhou-nos e sorriu malicioso:


¾ Doutor, quando aceitei o emprego no Bahamas sabia que ia estar cheio de gostosas. Avisei minha mulher e mesmo assim ela deu graças a deus quando larguei a policia! Aqui ela tem certeza que vou voltar pra casa inteiro!


Cláudio me encarou, cúmplice e disse:


¾ Fez bem, se você gosta da sua mulher ela não tem com que se preocupar!


O segurança gigante riu um riso franco. Meus olhos não costumam falhar. Aquele homem devia ter sido um bom policial.


¾ O senhor tem toda a razão, gosto mesmo!

Abriu a porta do escritório e o gerente da casa nos esperava atarefado. Depois das apresentações formais ele nos declarou:

¾ O próprio senhor Oscar gostaria de estar por aqui para tentar ajudar. Ele era muito amigo do Doutor Eduardo. Infelizmente se encontra em viagem de negócios na Europa.

¾ Creio que não será necessário. O que preciso realmente é falar com as pessoas que viram o doutor Eduardo pela última vez. A propósito, quando liguei para cá, tive a impressão que o senhor esperava um telefonema desses a qualquer momento.

¾ Esperava mesmo. Não dizem que notícia ruim corre rapidamente? Fiquei sabendo da morte trágica do Doutor durante o jornal do almoço e como ele passou a noite aqui achei que seria o primeiro lugar que a polícia pensaria em procurar.

Atirei no que vi, acertei o que não vi. Essa informação era nova e preciosa. O Alberto tinha razão. Meu instinto dizia que finalmente eu achara um rumo. O Bahamas havia sido um palpite do arquiteto e parece que ele realmente conhecia Eduardo. Troquei olhares com Cláudio. Era como no baralho, ele sabia os sinais e se mantinha paciente ao meu lado fingindo indiferença. A merda era que os jornalistas já estavam sabendo. Não ia demorar nada pra essa história começar a feder.

¾ O senhor poderia nos levar as últimas pessoas com quem ele teve contato ontem a noite. É muito importante aproveitar o frescor da memória.  Os fatos se embaçam na cabeça com rapidez.

¾ Claro. ¾ Enquanto caminhava nos alertou da delicadeza do caso ¾ Sei que nem devia estar falando isso... ¾ Já sabia onde ele queria chegar, mantive os ouvidos atentos para ouvir as condições de sua própria boca. ¾ ...gostaria de pedir aos senhores sigilo tanto pelo Eduardo quanto pelas pessoas que falarão.

¾ Fique tranquilo. Essas pessoas vão apenas conversar conosco de livre e espontânea vontade. Ninguém está sendo acusado. Somente se precisar chamaremos para depor.

¾ Os Senhores parecem investigadores bastante sérios. Entendam que cuido de uma casa que não pode correr o risco de escândalos.

¾ Se as pessoas não tiverem o que esconder, não haverá risco algum.

¾ Agradeço muito.

       Não sei com que tipo de autoridade ele estava acostumado a lidar, mas parecia bastante aliviado com a nossa conversa. Quanto a mim, precisava ser o mais sensato possível. Não podia desperdiçar a chance de conseguir uma primeira e fundamental pista a seguir.

Ele mesmo nos acompanhou até uma sala reservada de decoração extravagante. Lá estavam as gêmeas. Duas ruivas lindíssimas. Lara e Lilian. Longos cabelos afogueados contrastando com a pele branca e os olhos azuis. As sardas se espalhavam pelos rostos e desciam pelos ombros nus. Pensei no “árquipélago das sardas” como diria Aldir Blanc. As únicas coisas a destoarem naquele quadro eram os olhos e narizes vermelhos, provavelmente de chorar. Cláudio as encarou e podia vê-lo salivando. Fomos apresentados e elas começaram a falar ao mesmo tempo complicando tudo. Tive que acalmá-las e começamos do início:

¾ Desculpe, meninas, preciso entender a situação. Uma de vocês fala e a outra, se tiver alguma coisa a acrescentar, completa. Assim, juntas, não vou entender nada. ¾ Disse muito didático. ¾ Quem começa?

¾ Eu falo! ¾ Já não sabia quem era uma ou outra, desde que uma só falasse, tudo bem. ¾ Nós conhecemos o Edu numa festa em Maresias. Fomos apresentadas por um amigo em comum. Ele foi muito gentil desde o começo e resolvemos confiar nele. Ele sabia da nossa profissão e onde trabalhávamos. Quando gostamos de alguém nunca escondemos esse tipo de coisa. Nos demos muito bem desde o primeiro encontro. Ele era um cara incrível e quando estava com a gente, nos tratava como princesas.

¾ Quer dizer que ele saia com mais garotas? ¾ Perguntou intempestivo Cláudio. Olhei para ele sem censura, a pergunta era pertinente.

¾ Acho que sim, mas não falávamos disso. Ele não cobrava exclusividade da gente, nem nós dele.

¾ E o que aconteceu ontem? ¾ queria chegar logo aos fatos.

¾ Ontem ele nos levou pra jantar na Família Mancini, tomamos um pouco de vinho e já estávamos meio altas quando ele nos trouxe de volta lá pelas das duas da manhã.

¾ Só que ele não quis ficar. Foi embora dizendo que precisava trabalhar e tinha que estar disposto e que se ficasse ele nem conseguiria levantar, mas prometeu levar a gente pra um passeio de iate em Ubatuba no final de semana. ¾ Completou a ruiva que se mantinha calada, com voz falhando, querendo recomeçar a chorar.

¾ Quer dizer que ontem vocês jantaram e logo depois ele trouxe vocês de volta. ¾ Continuei calmamente pra elas se controlarem. ¾ Não ficou por que precisava trabalhar. Ele estava um pouco alto de vinho mesmo assim parecia responsável?

¾ Isso mesmo! O Edu nunca teve problemas com a bebida. Era muito resistente e falou de um compromisso com um amigo muito importante e não queria... ¾ As gêmeas desabaram num choro convulsivo. Anotei todas as informações e me despedi das duas.

¾ Muito obrigado, meninas. Vocês estão liberadas. Ajudaram bastante. O investigador Cláudio vai pegar seus dados somente para uma futura averiguação. ¾ Sabia que ele iria adorar fazer aquilo e me daria tempo pra conversar a sós com o segurança. Essas pessoas que trabalham na noite são arredias e muitas vezes preferem não falar a se ver envolvido com assuntos tão delicados. ¾ Cláudio, depois me encontre no carro!

Desci a escadaria reluzente e fui conversar com o rapaz que me esperava do lado de fora. Era um negro alto e musculoso. Terno e gravata pretos. Camisa branca e careca aparada. Como todos que trabalhavam ali, esse também era educado na medida certa sem ser subserviente.

¾ Boa tarde, sou o investigador Dumas. Gostaria de fazer algumas perguntas sobre o Dr Eduardo.

¾ Fiquei sabendo, doutor. Foi uma coisa medonha o que aconteceu.

¾ Esqueça o Doutor. ¾ Sabia que era força do hábito e ele continuaria me chamando assim. ¾ Me diga, Eduardo era freqüentador assíduo?

¾ Sim, senhor. Um cavalheiro. Tratava todo mundo igual, se você falar com a rapaziada vai entender o que eu estou falando. Cumprimentava as pessoas do mesmo jeito sem importar se era o garçon ou o dono da bagaça.

¾ E ele veio aqui ontem?

¾ Chegou e saiu logo em seguida. Me lembro perfeitamente. Era duas e quinze. Até brinquei com ele dizendo que estava ficando velho. Ele me respondeu que velho nunca, daquele jeitão que só ficava bem no doutor Eduardo! ¾ As respostas batiam com o que as ruivas haviam falado.

¾ E notou alguma coisa estranha?

¾ Me deixa pensar... Depois falei pra ele dirigir com cuidado que ele parecia um pouco bêbado e... Sim! ¾ Seu rosto se iluminou com a lembrança. ¾ Ele parou uns 50 metros à frente e encostou. Estranhei e fui dar uma olhada pra ver se estava tudo bem. Como era uma garota que veio falar com ele não dei muita importância ao caso. Ela entrou no carro. Não era ninguém daqui por que as meninas ficam dentro da casa e ali não é ponto de prostituição. Lembro de ter balançado a cabeça e dei umas risadas pensando que o Doutor não tomava jeito mesmo.

¾ E você viu essa garota? Pensa bem! Tente se lembrar, qualquer detalhe pode me ajudar!

¾ O doutor acha que uma mulher...

¾ Por enquanto não tenho suspeitos e essa mulher pode saber muito mais.

¾ Era noite e a rua não é bem iluminada.  Morena, cabelos escuros, longos e parecia alta.

¾ Alta quanto?

Ele colocou a mão na altura do nariz: ¾ Mais ou menos assim, mais de um metro e oitenta.

¾ Mas sempre tem o salto alto.

¾ Isso, desconte aí uns dez centímetro pelo menos e é essa mulher que você procura.

       Anotei os dados do segurança e voltei a sala do gerente.

       ¾ Sr Guilherme, tem mais coisas que eu preciso saber sobre o Eduardo? ¾ Perguntei sabendo que ele já havia feito a lição de casa e me falaria mais do que eu sabia e menos do que precisava. Discrição é um dos fatores mais importantes no seu trabalho. Acomodou-se na cadeira e começo a contar a história.

       ¾ O Eduardo é nosso cliente desde o começo. Antes mesmo de eu ser gerente. Amigo pessoal do Oscar Maroni e muito querido das pessoas aqui. ¾ Parou como quem recorda os fatos. ¾ Sempre exigiu que fossemos muito profissionais. Porém era generoso com as meninas e também muito exigente. Elas tinham que ser educadas, para algumas ocasiões, finas até. Via nas meninas as parceiras ideais para ir a festas e jantares especiais. A sua roda social era das melhores e ele gostava de estar em todos os lugares.

       ¾ Ouvi falar que ele tinha um problema sexual? ¾ Sabia que naquele lugar essa poderia ser uma questão bastante embaraçosa.

       ¾ Sexual? O que as meninas falam é que ele era um amante incansável e muito criativo. Não creio que o Eduardo tivesse qualquer problema. Inclusive o sexual.  ¾ Essa resposta me deixou confuso. Um amigo íntimo tinha dado a entender que ele passava por problemas e todo o resto do mundo falava que ele não tinha problema algum. Lembrei que havia anotado os números dos médicos que Eduardo ia. Precisava verificar isso. Sabia que ele me contara só uma pequena parcela do que ele sabia. Minhas novas investigações talvez me levassem de volta a esse lugar.

       Agradeci a gentileza das entrevistas e recusei o convite pra ficar mais um pouco e jantar em companhia agradável. Não duvidava que seria mesmo. Só que minha cabeça estava em outra nesse momento. Podia ouvir as recriminações de Cláudio por não ter aceito o convite.

Voltei para o automóvel e Cláudio já me esperava, ansioso em saber se eu havia descoberto alguma coisa e excitado com as gêmeas. Procurei não tocar no assunto que poderia gerar discussão e fui direto a investigação. Abri meu caderno de notas e procurei organizar as ideias. Isso serviria para deixar Cláudio ciente dos próximos passos e para por a minha cabeça em ordem.

O que tinha acontecido até ali nós iríamos comprovar mais tarde com o legista. Por enquanto a suposição mais fundamentada era que o doutor Eduardo saíra para jantar com as gêmeas e as levara de volta ao Bahamas as duas da manhã de sexta. Ele não ficaria lá dentro mais que quinze minutos o que foi confirmado pelo segurança que o viu sair às duas e quinze. Entrou no carro desacompanhado. Parou a uns 50 metros do clube e aparentemente deu carona para uma desconhecida. O segurança foi enfático em dizer que ela não trabalhava na casa. E pelo que pude notar o doutor Eduardo era um sujeito muito suscetível às mulheres, para dizer o mínimo. Ainda havia o lance do problema sexual que ficou no ar.

¾ Foi ela! Tá na cara! ¾ Falou Cláudio enquanto engatava a primeira e partia com o veículo.

¾ Tudo leva nessa direção. Mas há problemas. Não temos uma descrição clara da pessoa, não sabemos os motivos.

¾ Outra coisa é que todos estavam de acordo com a história. Isso não é normal. Tudo bate com uma precisão de relógio. Ou essas pessoas são muito organizadas ou todo mundo ali se preparou para nos receber.

¾ Isso levanta uma outra série de suspeitos. Só que não vejo motivo pra ninguém ali matar o Eduardo. O cara era praticamente uma galinha dos ovos de ouro.

¾ Quanto mais eu procuro menos motivo encontro para a morte do Eduardo.

¾ E os quadros sujos de sangue?

¾ Ainda não sabemos se era sangue mesmo!

¾ Tá, Dumas. Lógico que era. Claro como uma assinatura!

¾ Assinatura... você, às vezes, dá uma dentro!

¾ Dou é?

¾ Acho que temos algumas pistas.

¾ Já é um caminho. Vamos voltar pra DP?

¾ Não. Me deixa em casa! Preciso pensar e dar uns telefonemas. Tem algumas pessoas que gostaria de falar e tirar umas dúvidas que estão na minha cabeça. Depois vou jogar sinuca pra pensar melhor.

¾ O que?

¾ Jogar sinuca, não sabe o que é?

¾ Não falei disso. O que é que você está pensando?

¾ Ah! Isso. Ainda são apenas suposições. Assim que eu tiver certezas te conto!

¾ Cara, você devia sair dessa vida. Sei lá! Arrumar uma outra mulher e tentar ser um cara normal.

¾ Essa história de novo! Porra, Cláudio! Já te falei que não tenho tempo nem paciência pra mais um casamento. Gosto da minha vida como é. Sem compromisso.

¾ E a sua filha.

¾ Uma hora ela vai ter idade pra me entender e a gente conversa.

¾ Pode ser tarde demais.

¾ Pode. Vou correr o risco. No momento ela está melhor com a mãe.

¾ Só estou tentando ajudar. Sua cara está péssima e não é de hoje.

¾ Não começa! Aliás me deixa aqui que vou andando o resto do caminho!

¾ Não precisa ficar nervoso! Eu paro de falar disso!

¾ Fica tranquilo. Não é nada contigo. Eu preciso pensar e penso melhor andando.


Capítulo IV



Desci do carro no começo da avenida 23 de maio. Subi pelo pontilhão sobre a avenida e cheguei na frente do metrô Anhangabaú. Passei pelo amontoado de camelôs que pululam o largo e fui em direção a Rua Martins Fontes. Logo estaria naquilo que se parecia muito com uma casa. Uma quitinete sórdida no centro da cidade.

Minha vida, desde que Cristina me deixou tinha se resumido aquele apartamento, os botecos com sinuca no Baixo Augusta e ao DHPP. Chegaria em casa e iria me concentrar na investigação. Depois iria jogar em algum lugar pra poder raciocinar sobre esse caso.

Eu também pensava em Cristina. Nos conhecemos na faculdade de direito. Ela fazendo a sua segunda faculdade e eu um aluno mais velho. Demorei muito até conseguir entrar na faculdade do Largo São Francisco. Para quem vinha de escolas municipais era muito complicado entrar de primeira no vestibular, além disso tinha que trabalhar para pagar o tal do cursinho.

Ainda hoje não sei o que fez uma mulher como Cristina se interessar por mim. Bonita, rica e inteligente. Poderia ter o mundo mas por um acaso da vida ou do seu irmão mais elegante, o destino, nos aproximamos lentamente. Quando ela terminou o curso nos casamos. Fomos morar num apartamento espaçoso que seu pai nos presenteou em um pedaço dos Jardins que mais parecia uma ilha da fantasia.

Íamos bem até eu entrar para a delegacia de homicídios e proteção à pessoa, o DHPP. Foi tudo muito rápido, minha entrada para ser investigador, logo em seguida uma gravidez complicada e nossa filha.

Os novos casos exigiam mais e eu me arriscava. Não conseguia, na verdade nem queria, largar minha segunda vida: A boemia. Muitas noites jogando com amigos nos botecos, no meio de atrizes iniciantes e ávidas de qualquer coisa. Enquanto ela vivia uma gravidez muito difícil.

Sofreu pra ter nossa filha e poucas vezes estive ao seu lado, sempre mais preocupado com o trabalho e com meu prazer. Deve ter sido um pesadelo para ela. Mas não consigo me arrepender.

Na época eu estava envolvido com uma investigação de homicídio de um jornalista. Como sempre atolado no trabalho até o pescoço e não estava dando atenção devida a minha esposa e minha filha pequena. Cristina nunca reclamou. Apenas pediu que eu tirasse umas férias e pudesse ficar com elas um pouco. Eu era ausente e tinha consciência disso. Prometi que assim que terminasse o caso iria pedir afastamento e viver uma vida normal por um tempo longo.

A Cris vinha de uma família rica, tinha sua profissão e ganhos suficientes para nós dois. O meu salário era e continua pequeno como o de qualquer investigador mais ou menos honesto.

Foi quando o caso começou a fugir do controle e os acusados, pessoas envolvidas com o tráfico e com comandos do crime organizado, deram uma reviravolta na situação.

Arriscamos tudo pra pegar alguns deles. A informação vazou e a operação foi um fracasso. Descobriram quem eu era e onde morava. Minha família foi envolvida e Cristina começou a receber telefonemas ameaçadores. Tanto para ela como para a pequena Helena, recém-nascida.  Foi nesse momento que tivemos nossa mais séria discussão e creio que fui um covarde. Ela pegou a pequena e disse que nunca mais voltaria. Se eu quisesse ver a filha que a procurasse. Não a culpo, muito pelo contrário, senti um imenso alívio. Acredito que se separando de mim salvou a vida de nós três. Delas por não estarem mais na mira de bandidos e a minha que estava enlouquecendo nessa vida de família.

Acho que de algum modo me separar foi como desatar um nó. Era uma coisa que não devia ter começado e que não farei de novo.

Peguei os jornais que se espalhavam na minha porta e entrei no pequenino apartamento empoeirado e cheirando a pia sem lavar. Meu pequeno mundo. Desisti de ligar pra Cristina. A contrição tinha surtido efeito e eu não pensava mais nelas. Coloquei as duas de volta ao compartimento das tristezas insolúveis.

Folheei o jornal e fui para as páginas policias. Um vício difícil de conter era ler todos os dias os crimes que ocorreram nos lugares mais ermos da metrópole. Lia e não conseguia me concentrar. Pensava no caso que tinha pela frente, até que uma pequena manchete me chamou a atenção: “Degolado dentro da sua própria casa”, era a chamada. Contava a história de um faxineiro aposentado que fora encontrado degolado na sua cama. Não explicava os motivos do crime por que ninguém sabia. Era um pacato senhor de 65 anos e viúvo. Sem parentes nem filhos. O motivo do crime não foi roubo ou qualquer outra coisa. Apenas a morte do pobre coitado.

É claro que esse morto só podia ter mesmo dois parágrafos da última página policial. O meu morto é mais ilustre e vai para as manchetes em letras garrafais. Apesar das diferenças de popularidade o que me chamou a atenção foi a estranha coincidência e proximidades dos dois crimes. De qualquer maneira anotei o nome de João da Costa Machado, 65 anos, viúvo, faxineiro aposentado. Guardei o caso na memória e passei para outro problema que era focar toda minha atenção no caso do doutor Eduardo e sua amante alta e mortal.

Tinha anotado muitos telefones que peguei da agenda da vítima e alguns deles poderiam tirar dúvidas e realmente me colocar na pista certa que acreditava já ter achado.

O final de semana prometia ser longo e abafado nessa cidade. Fiz ligações e muitas anotações. Depois entrei no chuveiro frio. A dor ameaçava voltar e eu a queria longe da minha cabeça.
       Sai de casa diretamente para meu bar preferido. Desci as escadas e, no porão bem iluminado, encontrei meu tapete verde preferido. O feltro das mesas de sinuca. Depois iria a algum dos bares cheio de gente do teatro da praça Rooseveld. Talvez arrumasse uma garota solitária para passar uma noite de insônia comigo.

Capítulo V






Na segunda eu já tinha muitas pistas em andamento. Ainda na sexta e durante todo o final de semana eu havia feito ligações e duas delas me colocaram assuntos interessantes.


A primeira foi uma conversa com o médico do Eduardo. O psicólogo com quem estava se tratando me informou que ele era um tipo de ninfomaníaco regenerado. Perguntei-lhe o que exatamente significava e respondeu que era como o alcoolismo, não havia cura, o que acontecia é que ele se mantinha alerta e controlado. Quis saber se ele poderia ter algum tipo de recaída e a resposta foi afirmativa. Não me revelou muito mais alegando segredo profissional. O que eu precisava já estava na mão. Isso explicava perfeitamente as ruivas. Elas seriam seu “controle” e explicava por que ele, mesmo depois de tê-las dispensado, não resistiu à tentação de uma nova conquista. A tal morena alta do final da noite era a “recaída”. Isso explicava também por que o Alberto achava que ele estava com problemas sexuais. Eram problemas mesmo só que não do tipo que ele imaginava.


A segunda boa pista era a lista dos quadros que estavam na casa do Eduardo e procurei seguir o paradeiro das obras, principalmente as que se encontravam manchadas no quarto. Essas eram de jovens e promissores artistas que expunham em galerias no exterior: Uma em Nova York e outra em Amsterdã. Haviam pertencido a um certo professor Demétrios. Mestre, doutor, cadeira em várias universidades e todos os títulos que puder imaginar. O sujeito era um brilhante estudioso em história da arte. Atualmente reitor de uma faculdade onde leciona.


Quando cheguei a todos esses dados já amanhecia a segunda e acabei caindo no sono.  Precisava lembrar de agradecer o pessoal da minha rede de informações. Foram muito prestativos. Aliás eles adoram fazer esse tipo de favor. Se sentem investigadores e o desafio em achar as informações é instigante.


Minha intenção era falar com o professor logo pela manhã. Começava a encaixar as peças e não queria perder o fio. Tinha também a garota que eu tinha arrumado e que se cansou de mim no sábado, disse que ia comprar cigarros e não voltou. Não preciso dizer que achei muito elegante da sua parte essa despedida sem delongas. Se juntar investigação, a garota e muitos jogos de bilhar regados a vodka temos um mapa preciso do meu final de semana. Bem menos excitante que o do Cláudio que havia saído com a tal secretária artista de cinema. Ele sempre fora muito bom nas conquistas rápidas e péssimo nos relacionamentos duradouros. Quem sou eu para recriminá-lo? Já que sou péssimo nas duas coisas.


 No DHPP o laudo do legista estava à minha espera. Era o que faltava pra começar a montar o quebra-cabeça. O caso parecia muito complicado e só agora começava a tomar um rumo. Eu queria entrar de cabeça nele. Chamei Cláudio na minha sala.


¾ Fala chefe ¾ entrou bem-humorado. O final de semana de folga devia ter sido muito bom mesmo.


¾ Fico feliz pelo seu humor! Nós vamos precisar dele. Acho que encontrei o caminho.

¾ Opa! Vamos lá, gênio. Manda ver.

¾ Primeiro você. Foi conversar com a mulher do Alberto?

¾ Putaqueopariu, Dumas! Você acertou em cima. Ela está querendo tirar tudo dele numa causa de danos morais. Furiosa é bem pouco pro que ela está sentindo. Tem fotos pra lá de comprometedoras e tudo o mais. O cara está ferrado! Dessa ele só escapa matando a dona...

¾ Uma mulher vingativa e com o orgulho ferido é muito perigosa.

¾ Põe perigosa nisso... ¾ Ele parou e ficou me olhando intrigado.

¾ Que cara é essa, Dumas? ¾ Desmanchei o riso irônico e voltei à seriedade habitual.

¾ Nada, Cláudio. Só alguns pensamentos maldosos.

¾ Você acha que foi ele?

       ¾ É possível mas improvável. A não ser é claro que ele tenha descoberto alguma coisa entre a mulher e o Eduardo.

       ¾ Nada, você não viu o tamanho da encrenca. Ela não faz o tipo do Eduardo. Ele tinha ótimo gosto pras mulheres e não se envolvia.

       ¾ Não custa continuar de olho nos dois. Mas acho que você tem razão. ¾ Continuei depois de pensar uns segundos. ¾ E não esqueça de manter o pessoal do Bahamas sob vigilância. Qualquer suspeita quero que me comunique imediatamente.

       ¾ Certo, chefe! E você o que manda?  

¾ Andei fazendo umas investigações paralelas e acho que consegui encaixar umas peças. ¾ Ele me olhou levantando uma sobrancelha. Não dei tempo.

¾ O Eduardo tinha um psicólogo. ¾ Entrei rapidamente no assunto. ¾ Cuidava de sua ninfomania e não da suposta impotência. As gêmeas deviam ajudá-lo a se manter dentro dos padrões, se é que podemos chamar o Eduardo de padrão. Isso nos leva a morena alta da saída da boate. Ela realmente esteve na casa da vítima. Eles fizeram sexo oral antes do assassinato.

¾ Que mórbido! Ela chupou o cara e depois degolou e cortou o pau dele?

¾ Parece que foi isso, e nessa ordem. Segundo os médicos não havia marcas profundas nos punhos, sinal de que ele estava ali por vontade própria.

¾ O legista achou alguns fios de cabelos compridos.

¾ Beleza! Vamos pro DNA?

¾ Só que eram falsos. Uma peruca.

¾ Merda! E não acharam mais nada?

¾ As manchas nos quadros eram sangue da vítima mesmo, nada mais. O Eduardo foi amarrado e não fazia a menor idéia do que iria ocorrer.

¾ Voltamos a estaca zero.

¾ Não! Nossa suspeita pode ou não ser morena. Mas aparentemente é uma mulher. Os quadros todos pertenciam a uma pessoa que os presenteou ao Eduardo.

¾ Caralho, Dumas. Vamos falar com o cara!

¾ Aqui está o telefone da faculdade onde ele é reitor do curso de comunicação. Marca uma entrevista ainda hoje.

¾ Depoimento?

¾ Não, ainda não! Somente uma conversa pra ele esclarecer algumas coisas.

¾ É pra já!

CAPÍTULO VI


Nesse momento a segunda-feira virou o que ela geralmente é: Um inferno! Um chamado urgente de homicídio nos interrompeu. Corremos para o carro do Cláudio que ligou a sirene e engatou. Saímos freneticamente para o Pacaembú. Mais um crime num bairro nobre. Pela expressão do Delegado a coisa ia ficar feia pro meu lado.

Passava pouco das 10 horas quando saímos do DHPP e chegar ao estádio do Pacaembú, na praça Charles Miller, não demorou quinze minutos. Logo estávamos na faculdade onde aconteceu o assassinato. Muitos policiais nos esperavam em frente às grandes colunas gregas no final da escadaria que levava ao prédio principal. Obras de arte se espalhavam pelo jardim cercados de grades. Vi também sistema de segurança para monitorar a entrada e saída das pessoas.

Eu sabia que naquele prédio ficavam o museu e o teatro. Já tinha vindo com Cristina algumas vezes em exposições interessantes e algumas peças na minha outra vida. Os policiais tinham tomado as primeiras medidas de segurança. Muita gente do lado de fora, principalmente alunos. Avistava também algumas tvs e jornalistas. A imprensa começava a farejar o mau cheiro dessa história. Era a faculdade onde o Professor Demétrius era reitor. Eu já me preparava para o pior.

¾ Onde está a vítima? ¾ Falei com o policial encarregado enquanto caminhávamos apressadamente pelo saguão.

¾ No anfiteatro, senhor! Fica no andar inferior do prédio na parte dos fundos. Por aqui.

¾ Ninguém mexeu em nada? ¾ Continuei enquanto descíamos uma das escadarias laterais que cercava o moderno teatro da fundação.

¾ Na verdade ninguém quis mais entrar na sala. ¾ Ladeamos o teatro, descemos outra escadaria e passamos pelo espaço entre os prédios.

¾ Vamos, Cláudio. A semana vai ser terrível!

¾ Porra, cara! Você realmente gosta disso. ¾ Entramos no prédio de comunicação quase correndo e rumamos para os anfiteatros um andar abaixo de nós.

Já estava me preparando para o que iríamos encontrar. O tal instinto me alertava que não seria muito animador de se ver.

O professor sentado na cadeira de boca aberta ainda tentando respirar mesmo depois de morto. A garganta cortada com perfeição. Era um tipo de corte que, mesmo se a vítima conseguisse socorro, não daria para estancar o ferimento. A artéria aberta não poderia receber atendimento a tempo, ferimento mortal. Os dois olhos foram retirados e colocados na página aberta de um livro, sem o mesmo cuidado usado no corte do pescoço. Alguma coisa apressou nossa assassina. Talvez tenha ouvido ruídos de fora ou achado que já estava abusando da sorte.

¾ Merda! Ninguém mais mata decentemente nessa cidade! ¾ Esbravejou Cláudio. ¾ Tenho saudades daquele tempo que era bala ou facada na barriga. Um estrangulamento de vez em quanto. Mas isso?

¾ É a mesma pessoa que matou o advogado.

¾ Claro que é a mesma pessoa, Dumas! Posso ser meio burro mas ainda não estou cego. Ela assina seu nome nos mortos. A gente só não consegue entender a caligrafia.

¾ Outra vez precisava estar muito perto da vítima pra fazer isso.

¾ Você acha que esses caras conheciam seu assassino?

¾ Ou conheciam ou não poderiam suspeitar o que iria acontecer.

¾ Voltamos a tal “mulher” misteriosa que usa peruca?

¾ Venha ver isso ¾ Fiz Cláudio chegar perto do morto, ¾ esse tipo de corte é cirúrgico. Muito preciso feito com algo afiadíssimo. Tenho certeza que foi um bisturi. Quem anda cometendo esses assassinatos tem conhecimento médico, sabe abrir cortes mortais. Mas olhe os olhos.

Ele olhou para os globos no livro.

¾ Não! Para os buracos onde estavam os olhos.

¾ Que coisa nojenta!

¾ Já não vemos a mesma precisão. Aconteceu alguma coisa que alertou nossa amiga. Teve que realizar as pressas o que você chama de assinatura.

¾ Você estava na pista certa. Ela foi mais rápida dessa vez.

¾ Pensei nisso assim que entrei na faculdade. Se eu tivesse ligado os fatos um pouco antes!

¾ Cara, nós fazemos o possível! Você está no caminho. Vamos pegá-la, só que não somos adivinhos.

¾ Agora não precisamos ser adivinhos. As pistas estão todas na mão.

¾ Ilumine minha mente mestre.

¾ Não se brinca na frente de cadáveres, Cláudio.

¾ Vamos lá, Dumas! O que temos aqui?

¾ A primeira vítima era um mulherengo incurável e a assassina arrancou-lhe os órgãos genitais. Depois, sujou de sangue todos os quadros eróticos que havia no quarto. Quadros esses que foram presentes do Prof. Demétrius que é a segunda vítima. Um professor de história da arte. Mestre em renascimento e com tantos títulos catedráticos que dava pra encher essas paredes de diplomas. Ambos pessoas bem nascidas e de sucesso financeiro. Também na mesma faixa etária de vida, o que nos leva a crer que essas pessoas se conheciam de longa data. O professor perdeu o que lhe era mais importante: os olhos.  Estão sobre a gravura de um livro. Como se estivessem olhando a página. Essa gravura mostra uma cirurgia. Acredito que termos mais vítimas, o assassino aponta uma direção. Nos resta fazer as conexões entre os dois mortos e a próximo.

¾ Você acha que vai ser um médico?

¾ Um médico, um enfermeiro ou um doente.

¾ Um homem com certeza?

¾ Aparentemente sim. ¾ Continuei, ainda procurando alguma coisa que nos ajudasse naquela cena bizarra.

¾ Temos que nos apressar. Quem está cometendo esses crimes está cronometrando nossos passos pra ficar um pouco na nossa frente. ¾ Falo Cláudio olhando para o relógio.

¾ Parece que sim. Isso me irrita.

¾ Acho bom a gente cuidar da imprensa por que já deve ter um monte de tvs lá fora! ¾ Argumentou Cláudio com uma cara azeda, como eu não gostava muito de intromissões. ¾ Eles chegaram antes dos policiais. Temos que correr!

¾ Dessa vez não vai dar pra deixar a imprensa fora do caso. Isso vai inibir nosso assassino. Vai ficar muito mais cauteloso daqui pra frente.

¾ Você tem certeza que vai ter mais?

¾ Pode ser. Não te parece uma obra inacabada?

¾ E onde vamos procurar?

¾ Estamos numa faculdade. Vou a biblioteca. E você fale com a imprensa. Seja vago e aparente confiança. A faculdade tem câmeras em todos os lugares. Pegue as fitas. Converse com professores, alunos e os outros envolvidos. Você é bom em ouvir as pessoas. Quero saber tudo que aconteceu aqui hoje. E, Cláudio...

¾ Sim?

¾ Nada de envolvimento com alunas, certo?

¾ Pode deixar! Até mais tarde...

CAPÍTULO VII


Fui à biblioteca. Precisava de um local tranqüilo para colocar as ideias em ordem. Cláudio tinha razão. Eu estava excitado e louco pra colocar as mãos em quem andava cometendo esses crimes. Isso é ruim, pode atrapalhar a linha de raciocínio. Quase perdi a calma, chegar tão perto e pela diferença de algumas horas outra pessoa perdeu a vida. Sentei-me para folhear os livros de arte. Aquele era o meu ambiente. Adorava o cheiro dos livros velhos, o silêncio, os rostos sérios dos alunos. Faltava só uma boa bebida. Apesar disso conseguia compreender muito bem por que raramente um estudante gostava de bibliotecas.

As qualidades que eu apreciava são intoleráveis ou incompatíveis para a maioria dos jovens alunos. São enérgicos e têm uma quantidade ilimitada de informações fast food ao alcance dos dedos. Tudo na velocidade digital. Infelizmente eles deixaram de ser iniciados no aprendizado para serem somente repetidores dessa informação rasa. O meu mundo, o que eu gostaria realmente de viver, está se acabando rapidamente, se já não acabou e eu sou somente um morto-vivo a espera que me cortem a cabeça.

Foi fácil achar o quadro onde o assassino embrulhou os olhos. Era um Rembrandt. Lição de anatomia do doutor Tulp. Na obra o tal doutor está fazendo uma incisão e mostra a um público maravilhado qual o funcionamento dos nervos e músculos do braço esquerdo do cadáver. Uma dissecação no século XVII era um verdadeiro acontecimento. Quem quer que estivesse cometendo esses crimes possuía um grau de estudos adiantado, tinha conhecimento médico, era culto, diria até sofisticado e estava contando uma história.

O Rembrandt dizia muito sobre isso. Seu claro e escuro, suas sombras podem ser lidos como a inquietação dos filósofos do seu tempo sobre o espiritual e o carnal, mas aqui assume uma outra aura. A de vida e morte, outra questão também filosófica.  O professor estava morto, ele estaria no lugar do artista. Com o pintor morto resta-nos a obra. O Doutor, o cadáver e o público. Temos que verificar quais as relações que tinham o Professor Demétrius e o Eduardo. Dois cadáveres que ainda têm muito a dizer. Depois relacionar todos os doutores, pacientes, pessoas ligadas à medicina que estejam no raio de amizades deles com rapidez antes do próximo assassinato. Se é que haverá próximo, isso também é apenas conjectura.

Apesar de lidar com um criminoso que apresenta conhecimentos em algumas áreas, o caso não escapa muito de ser clichê. Essa pessoa quer ser presa ou está jogando e se arriscando para um grande prêmio. Ainda não consegui chegar nas motivações. Talvez só pegando o assassino que irei descobrir o que o levou a cometer os crimes. Ele está nos contando uma história, disso eu tenho certeza, e essa é a chave. Os lugares comuns estão todos a mostra apontando para uma direção a seguir. Temos que ter a precisão de chegar à próxima vítima antes do assassino.

Deixei Cláudio tomando conta do local do crime. Não dava para ficar ali. Ele cuidaria perfeitamente da imprensa revelando o mínimo possível. Nós sabíamos que por mais que ele escondesse o jogo, iria ser só uma questão de horas para alguém revelar. A imprensa tem tantos ou mais informantes que nós. São mais bem pagos. A coleta de provas ficou a cargo da perícia e eles serão tão pressionados quanto eu pra achar alguma coisa. Sabia que num piscar de olhos os relatórios estariam na minha mesa. Quanto a mim, tinha que correr. O relógio estava jogando contra. Precisava ir de encontro à próxima morte antes do assassino. Evitar mais um cadáver e pegar o criminoso o mais rapidamente possível, já podia antever as manchetes nos jornais e as notícias na internet se espalhando. A opinião pública cai em cima dos políticos que vão nos apertar até tirar a última gota de suor ou sangue.´
CAPÍTULO VIII



Fazer as ligações entre Demétrius e Eduardo foi mais simples que imaginava. Eles se conheceram quando cursavam o mesmo colégio particular na Vila Mariana nos anos setenta. Travaram uma amizade que se mostrou duradoura. Depois de formados, mesmo seguindo faculdades diferentes, jamais perderam contato.


A formatura do colégio foi em dezembro de 1977 e junto com eles haviam mais 32 alunos. Descartei a princípio as mulheres. Parecia que as vítimas continuariam a ser homens. Eu não podia ter certeza e não havia tempo de verificar todas as pessoas, quem estava matando parecia ter muita pressa. Tinha que acertar pela dedução. Comecei pelos rapazes. Quatro deles haviam cursado medicina e três se formaram.

A associação dos ex-alunos funcionava maravilhosamente bem. Consegui com rapidez os nomes e endereços que precisava. A má notícia é que a criminosa também teria acesso aquelas informações com facilidade. Ela estava algumas horas na minha frente. Como sairiam notícias em todos os jornais dando detalhes sórdidos dos acontecimentos ela iria saber que estaríamos nos seus calcanhares e se apressaria.
Os jornais já haviam apelidado a assassina, não sem um toque de humor negro, de madame Guilhotina. Falavam do caso do professor e também desenterraram o caso do doutor Eduardo. Páginas policiais das mais sangrentas. Essas eram informações que não deveriam ter vazado tão rapidamente. Comprometeria a investigação. Além, é claro, dos milhares de telefonemas que a polícia receberia de denúncias. O estrago estava feito, com o caso nas ruas, os jornais da noite iriam noticiar tudo. Quanto a isso ninguém aqui poderia fazer nada. Tinha que me concentrar nas pistas.
No final do dia, com os quatro nomes na mão, encaminhava ordens para que alguns policiais fossem encontrá-los a paisana e me avisassem de qualquer coisa suspeita. Cláudio entrou na minha sala sorridente:
¾ Dumas, decupamos todas as fitas da faculdade e temos um rosto. ¾ Disse me mostrando algumas impressões coloridas e falando ao mesmo tempo. ¾ Essa garota da foto não foi identificada como aluna.
Apontava para um rosto que não dava para identificar com certeza. A mulher tinha os olhos cobertos por grandes óculos escuros. Comparando com as pessoas em volta ela parecia alta, estava vestida casualmente e parecia ser uma mulher bonita e um pouco mais velha que seus colegas. Desta vez seus cabelos estavam dourados. Outro disfarce.
¾ Conversei com muita gente e os rapazes tentaram se aproximar e saber quem era a nova aluna.  Disseram que ela falou muito pouco. Na verdade eles a acharam uma nojenta, mas não ligaram tem muita gente no mundo assim hoje em dia, segundo eles.
Ouvi o Cláudio calado, olhando a fotografia.
¾ Tem idéia de como ela entrou na faculdade? Os portões têm catracas com identificação eletrônica.
¾ Temos uma queixa de furto. Uma garota da faculdade teve a bolsa furtada num bar ali perto. Provavelmente a desgraçada usou esses documentos ou um artifício parecido para entrar na escola.
¾ Provavelmente, Cláudio. Foi um bom trabalho. Temos uma descrição parcial. Já dá para começar. Eu tenho o nome e endereço das quatro prováveis vítimas. Venha comigo que não temos tempo a perder. ¾ Peguei em seu braço, juntei a papelada que me trouxeram e o arrastei pelos corredores do DHPP, enquanto contava a história toda dos alunos e dos médicos.
¾ Cláudio, no primeiro assassinato os quadros foram manchados de sangue. Nós não tínhamos como saber, mas era um aviso. O Eduardo era ninfomaníaco e perdeu seus órgãos genitais. ¾ Comecei didaticamente. ¾ No segundo crime o cara era um especialista em artes e perdeu os olhos. Eles estavam cuidadosamente colocados em cima de uma gravura. Esse quadro conta a história de uma dissecação médica. Do jeito que os crimes são cometidos parece uma vingança calculada. Cada vítima perde sua parte mais importante como se essa mutilação fizesse parte de um ritual. ¾ Continuei a explanação sem dar tempo para perguntas. ¾ Esses dois homens se formaram no mesmo colégio nos anos 70 e pareciam bastante íntimos já que mantiveram uma relação de amizade nesses 30 anos. Nossa próxima vítima deve ser alguém dessa turma, um homem e provavelmente um médico.
¾ Caralho, Dumas! Pode ser que você tenha razão. Vamos atrás dos caras e ficamos de olho.
¾ Já fiz isso. Logo vamos ter notícias. Se minha intuição estiver certa vamos pegá-la antes que cometa o próximo crime.
Não demorou mais que meia hora e o telefone começou a tocar. Dois dos médicos não estavam trabalhando no período. Um deles de licença e outro em campanha política. O que não acabou o curso nunca nem sequer chegou perto de um hospital. Tinha verdadeiro horror a carreira. Restava o quarto. Ele estava de plantão e trabalharia uma parte da noite. A informação foi dada por sua mulher. O médico já saíra para o hospital. O Doutor Carlos Augusto Neto era um neurocirurgião muito requisitado que faria uma operação de emergência bastante complicada ainda hoje.
Essa era a nossa melhor pista.
¾ Vamos ao hospital. Temos que falar com ele o mais rapidamente possível.
¾ O cara deve estar operando, como vamos fazer?
¾ Vamos ter que improvisar.
¾ Nada de ir pra casa, não é?
¾ Nada de folga até a gente acabar com isso. O próprio secretário de segurança me ligou e pediu meu fígado se não trouxer notícias logo.
¾ Quer dizer que tomar banho e fazer a barba é um luxo?
¾ Pode usar o banheiro da DP e eu compro uma gilete descartável pra você.
¾ Vá se foder, Dumas!
Enquanto Cláudio estivera fora, fui convocado para uma reunião com o meu superior e o secretário de segurança. Eu lamentava o tempo perdido nessas reuniões mas não tinha escolha. Queriam expor a situação e colocaram tudo de maneira muito simples. A mídia estava toda em cima deles. Com as últimas crises nos presídios e a onda de ataques à polícia, todos acusando o governo de inapto e sem pulso. A imprensa dizia que a violência estava fora de controle e a polícia completamente despreparada. Eu não tinha argumentos.
Falei que dessa vez a mídia estava certa, o governo era inepto e a polícia despreparada, mal remunerada e mal armada. E que o problema da violência não tinha solução fácil. Não era uma simples questão de repressão policial e sim um problema social que ia desde a péssima distribuição de renda até a educação. Então a culpa não era exclusiva da polícia. Os políticos eram muito mais culpados que qualquer outra classe social.
Fiz meu discurso apocalíptico político de sempre. Claro que eu estava pregando no deserto já que nenhum dos dois estava interessado em saber a opinião de um reles detetive. Eles me deixaram falar por que me conheciam e sabiam que o desabafo me faria bem e eles teriam minha cabeça pensando inteiramente no caso e não nessas “besteiras políticas”.
O problema é que os dois estão acostumados com o que eu falo. Não ligaram a mínima e ainda me deram as esfregas normais. No final das contas não interessava o que eu pensava e sim o resultado. Se eu pegar o assassino logo, tudo se resolve. Senão todo mundo na rua ou coisa pior.
Os políticos conseguem tudo com uma facilidade inacreditável, para o seu próprio lado, é claro. E quando alguma coisa acontece e precisa ser investigada tudo acaba em pizza. Quanto mais eu pensava nesse mundo menos eu entendia. Lembrava sempre Dom Quixote e suas andanças amalucadas. Me sentia assim um amalucado que fala e faz coisas sem sentido num mundo ainda mais sem sentido.  O que importa, afinal, é que a corda arrebenta mesmo do lado mais fraco. Não que eu me preocupasse em perder o emprego. Apenas gostava de fazer bem o meu trabalho e essa mulher estava começando a nos fazer andar em círculos e isso eu não admitiria.
Ouvi sem entender as últimas considerações do secretário. Minha cabeça já estava em outro lugar. Atrás da criminosa. Nada mais me preocupava. Que o mundo fosse lamber suas feridas e se fodesse eu precisava resolver esse caso, meu trabalho é minha obsessão.
Queria sair logo dali e os dois notaram, satisfeitos, a minha pressa. Eles sabiam perfeitamente que as duras não teriam efeito nenhum sobre mim mas que ser passado pra trás por um criminoso era um pecado inadmissível e isso me tornava alguém importante pra eles. Enquanto eu fosse um louco obsessivo teria emprego garantido.

CAPÍTULO IX

Entramos no carro e saímos rumo ao centro. Não podia demorar mais do que 15 minutos para chegarmos ao hospital. Cláudio ligou a sirene, ele adorava esses brinquedos de crianças dos filmes americanos. Muitas luzes coloridas, coisas rodopiando e fazendo barulho. Infantilidades do cinema. Um motoboy acidentado em pleno túnel do Anahangabaú nos atrasou um bocado e, enfim, a sirene mostrou ter algum valor. A confusão diária de uma metrópole inchada e poluída. Quem tem muita grana pode viver um bocado bem por aqui. O resto de nós não passa de bucha de canhão. Levamos nossas vidinhas medíocres e tentamos sobreviver lidando com a miséria cotidiana que nos esfregam na cara. Um enorme outdoor com a capa de uma revista dizendo que uma beldade televisiva tem a fortuna acumulada em tantos milhões que a maioria não consegue contar. Aos pés da gigantesca propaganda uma família inteira dorme ao sabor do tempo e das esmolas.
Passamos embasbacados pela apresentadora loira e fechamos os olhos pros pedintes. Uma reação natural. Pobreza demais, violência demais nos deixam cegos, senão loucos. Tudo levado ao extremo da banalização. Não é crueldade, só uma dureza de espírito própria dos sobreviventes. Cuidar da sua própria vida já é trabalho demais pra qualquer um.
¾ Como vamos achar a garota? ¾ Cláudio mais uma vez me colocou de volta a realidade.
¾ Você vai vigiar todas as saídas do hospital. Já pedi pra alguns agentes seguirem pra lá também pra te dar apoio.
¾ E você?
¾ Eu vou cuidar do doutor. ¾ Continuei as ordens. ¾ E tenha muita discrição, não quero espantar nossa amiga. Ela deve estar bastante desconfiada de que estamos bem perto.
Chegamos ao hospital junto com a equipe de apoio. Nos separamos rapidamente e entrei com muita pressa pelas portas automáticas. Me dirigi a portaria atrás de informações. Mostrei as credenciais e pedi pressa.
¾ O Doutor Carlos Augusto já está na assepsia e não poderá vê-lo.
¾ Você não está entendendo. Não estou pedindo uma consulta. Essa é uma intimação policial. Preciso ver o Doutor Carlos imediatamente. É um caso de vida ou morte.
¾  O Senhor é que não está entendendo. Caso de vida ou morte é o paciente que precisa da operação. Já está tudo pronto. Qualquer problema com o doutor e essa pessoa pode sofrer traumas sérios!
Vi que ali eu só iria perder tempo. Aproveitei que a atendente se distraiu e entrei pelos corredores. Perguntei onde era a sala de assepsia para uma enfermeira que me interrogou com o olhar e só me falou o andar depois que mostrei minha carteira policial. Nos filmes isso parece bem mais fácil.
Corri para o elevador e vi que dois seguranças vinham em minha direção com a atendente atrás me apontando. Subi rapidamente pela saída de emergência rumo ao quinto andar. Os seguranças corriam atrás de mim. Arfava a cada lance vencido, maldizendo a quantidade de vodka ingerida nesses anos todos, ao mesmo tempo tentava falar ao rádio com Cláudio para que ele bloqueasse todas as portas de acesso, inclusive do estacionamento. Não queria ninguém mais entrando ou saindo do prédio. Se a assassina estivesse por lá nós a encontraríamos. Só esperava chegar a tempo de salvar o doutor se é que ele realmente corria perigo.
Sai correndo e esbaforido das escadarias diretamente para o corredor do quinto andar com a carteira na mão. Mal conseguia falar com as enfermeiras. Perguntei num esforço pra conter a respiração onde o Doutor Carlos estava fazendo a assepsia e elas me apontaram a sala, assustadas.
Entrei com cuidado só para descobrir que o esforço fora em vão. O médico jazia no chão com a garganta cortada e o intestino rasgado pelo seu próprio bisturi. E estava tudo largado ali, a assassina havia acabado de cometer o crime. Ela devia estar muito perto. Antes que eu pudesse sair os seguranças entraram. A confusão foi formada, todos gritavam ao mesmo tempo. Eu mostrava a carteira policial e eles me apontavam armas. O médico ali todo ensangüentado não facilitava as coisas. Perdi minutos preciosos explicando o que estava acontecendo. Mostrei a carteira e apontava pro médico morto e cuidei para que me obedecessem imediatamente dando ordens urgentes aos berros, estava tudo saindo fora do controle.
Um deles correu em direção as saídas para avisar a direção do hospital, afinal tinha mais uma vida correndo perigo e o paciente precisava de cuidados. Eu esperava que não fosse tarde demais para pegar a assassina. Dessa vez ela estava numa arapuca. O hospital era muito bem planejado e não oferecia chances de fuga. O outro segurança ficaria vigiando a sala onde ocorreu o assassinato.
¾ Cláudio, o doutor acabou de ser assassinado. Não deixe ninguém sair. Ela está no prédio.
¾ Merda! Vamos pegá-la, Dumas.
Desliguei o rádio torcendo para que ele estivesse com a razão. Voltei minha atenção para o doutor ensangüentado no chão. Olhei com atenção procurando alguma pista imediata. A única coisa que eu podia notar era que aquele fora um serviço inacabado. Apesar de ser o mesmo tipo de crime não houve os requintes de crueldade dos outros dois pela falta de tempo.  O pescoço cortado eu já conhecia bem, a barriga e os pulsos também foram cortados às pressas. Ela sabia que estávamos no seu calcanhar e loucos pra pegá-la.
Desci para o térreo, dessa vez de elevador, e procurei acalmar minha pulsação. Eu não era mais o garoto de antes que podia correr atrás de bandido feito um louco.
Encontrei Cláudio na recepção e já havia um começo de tumulto. Expliquei em poucas palavras o que deveríamos fazer. Como estávamos com uma descrição e a foto da assassina faríamos uma averiguação em todas as pessoas que estivessem no hospital e tivessem características próximas às da suspeita.
Controlamos a situação e começamos a liberar as pessoas que não tinham as características que procurávamos. Logo chegaram os outros policiais com as pessoas que ficaram presas nas saídas. Liberamos primeiramente os homens. Depois as mulheres fora dos padrões. Restaram três delas. Foram rapidamente liberadas. Duas enfermeiras que não ficaram no segundo andar o dia inteiro cuidando das crianças da maternidade. A terceira era uma paciente que acabara de chegar. Eu não conseguia acreditar que havia perdido a assassina de novo quando um dos policiais trouxe um saco de lixo.
¾ O que é isso, Roberto?
¾ Dá uma olhada, Dumas. É uma roupa de enfermeira, peruca e óculos.
¾ Porra! Onde você achou isso!
¾ Estava em uma das latas de lixo do térreo. Ela abandonou o disfarce e se mandou debaixo dos nossos narizes!
Levei as mãos à cabeça, incrédulo. Como ela poderia ter escapado?
¾ Não pode ser! Porra, Cláudio! Como é que ela saiu? ¾ Gritei perdendo a calma. ¾ Todas as portas estavam bem guardadas. Não tinha como escapar.
¾ Vocês viram saídas pra lavanderia e outras entradas?
¾ Claro, Dumas! Com quem você acha que está lidando? Somos profissionais! Você não é o único que sabe o que está fazendo!
Aquilo era demais. Sabia que o Cláudio estava certo e que eles cumpriram a risca todas as normas aprendidas nos manuais. O problema é que estávamos lidando com alguém que parecia trabalhar sempre um passo na nossa frente. Tudo planejado com uma estratégia minuciosa. Nunca podia imaginar que ela escaparia sem sequer ser notada. Mesmo assim tentei uma medida desesperada.
¾ Verifiquem todos os andares e todos os quartos.
Todos no hospital, desde as enfermeiras até a administração estavam atrás da gente pedindo explicações do que aconteceu. Sem contar o pessoal da imprensa que já havia chegado.
Nós não tínhamos tempo a perder. Contei rapidamente o que se passava para o diretor do hospital. Um senhor muito inteligente e prestativo. Comprometeu-se a cuidar da imprensa e dos seus subordinados, mesmo por que isso afetaria diretamente seu hospital. E me daria tempo de tentar achar a assassina, se ela ainda se encontrasse dentro do hospital.
¾ Sua ajuda vem em boa hora Senhor Antônio. ¾ Apertei a mão do diretor que tentou tranquilizar-me:
¾ Faça a busca detalhada que precisar, mas tudo com a maior discrição. Vou ver o que posso fazer com o pessoal do hospital e os da imprensa. Vamos organizar essa bagunça.
¾ Mais uma vez obrigado! Essa confusão só será benéfica para o criminoso.
Sai pelos corredores dando ordens imediatas para meus homens. A assassina podia estar em algum lugar no prédio. A vistoria seria longa pelos oito andares do edifício.
Pedi a Cláudio que investigasse tudo no hospital. Queria saber como alguém podia ter se infiltrado ali. Devia haver alguma pista, alguém ou alguma coisa que nos ajudasse. O trabalho era simples porém minucioso. Teríamos que verificar todas as entradas. Cada pessoa que passa pela portaria, seja ela funcionário, visitante ou paciente e cadastrado. Tem que haver algum indício, alguém não autorizado entrando por ali.
Verificamos saídas de emergência e as janelas e não era possível escapar. Também o pessoal da lavanderia por onde poderia ter saído junto com algum funcionário ou mesmo com a roupa suja. O fato é que durante o período do crime não saiu nada do prédio. Nem roupas, nem alimentos. Não havia como ter saído sem ser vista. Havia câmeras em todos os andares, colocadas estrategicamente para vigiar os corredores e elevadores, mas ninguém pensou em colocar uma na sala de assepsia. Quem poderia imaginar? Pedi para Cláudio verificar isso também. Ele saiu resmungando um palavrão para sua lista infindável de obrigações. Minha sorte é que ele era, apesar de um tanto afobado, prestativo e cuidadoso. Sabia que não iria descobrir nada mas me traria tudo o que pudesse ser uma pista.  
Enquanto isso eu iria voltar ao local do crime e investigar com maior cuidado antes que o pessoal da perícia chegasse. Tinha que haver uma falha no plano da assassina e eu queria descobri o quanto antes. Esse poderia ser a última vítima já que não havia a habitual assinatura. 

CAPÍTULO X

Entrei de volta a sala de assepsia e a visão do morto me lembrou que isso estava ficando constrangedoramente rotineiro. Dessa vez não havia nada que me levasse à próxima vítima. Chegamos muito perto e isso não deu tempo pra que ela se arriscasse a demorar mais que o necessário. Será que havia acabado? Ou será que ela iria atrás de todos da classe? Ou será que era alguém contratado para fazer o serviço? A motivação de um crime tão cruel tem que ser muito forte. As peças ainda não se encaixavam. Fosse o que fosse eu teria que encontrar todos os envolvidos.
Verifiquei a sala com cuidado. Nada parecia fora do lugar com exceção do médico morto, é claro. Outra vez a pessoa não esperava ser atacada. O efeito surpresa é o grande trunfo para o sucesso dos crimes até aqui. Um cirurgião com os tendões das mãos cortados. Isso é tudo. Dessa vez não deixou uma trilha que nos levasse ao próximo. Mesmo se não houver um outro cadáver devo continuar no caso. Só que com maior tranqüilidade. Vamos poder trabalhar longe de olhos curiosos e da pressão política. Quando acabam as mortes o caso vai esfriando e a opinião pública agourenta vai procurar outra coisa pra exercitar sua necrofilia e a mídia vai junto. Defunto antigo não vende jornal nem horário na TV.
O rádio me tirou dos delírios funestos. Era Cláudio pedindo minha atenção. Na recepção a confusão era grande. Os repórteres já estavam por toda parte fazendo as perguntas de sempre: Era mais um ataque de Madame Guilhotina? Não respondi nada e fui direto conversar com meu parceiro.
¾ Quem deixou essa gente entrar?
¾ Porra, Dumas! Você sabe que eles entram em qualquer lugar. São uns puta duns urubus! Mas o diretor do hospital esta cuidando deles. O cara é malandro.
¾ Ainda bem... O que você descobriu?
¾ Uma das enfermeiras deu queixa de ter perdido todos os documentos. ¾ Fiz uma cara de paisagem e ele continuou ¾ Isso foi uma semana. Ela estava de folga pela manhã e só voltou ao trabalho agora pouco. Acontece que uma outra pessoa usando seu nome e documentos bateu o ponto hoje pela manhã para fazer hora extra.
¾ A assassina entrou com os documentos roubados.
¾ Bidu!
¾ Você já falou com ela?
¾ Sim, logo que ela chegou a entrevistei e me contou o que aconteceu. ¾ Fez uma pausa pra começar a história. ¾ Bom, ela saiu na sua folga com um rapaz que havia conhecido no bar aqui em frente. Um lugar onde o pessoal do hospital vai pra fazer um lanche. Saíram na mesma noite e ela disse só ter percebido que seus documentos tinham sumido em casa. Achou que tinha perdido por que o dinheiro estava na carteira. Só o RG e a identificação do hospital estavam faltando. Falei com o pessoal do bar e eles confirmaram que ela o conhecera lá.
¾ O que você acha?
¾ Ela não está mentindo. Posso jurar.
¾ Ela fez um retrato falado desse sujeito?
¾ Estamos trabalhando nisso agora. Tudo leva a crer que nossa assassina tem um cúmplice.
¾ Pode ser. Mas não faz muito sentido. Ela pareceu agir sozinha até aqui. ¾ Continuei ¾ Assim que o retrato estiver pronto me avise. Estávamos muito perto. Agora não há pistas para a próxima vítima. Talvez ela tenha encerrado o ciclo, mas se houver algum outro, ela vai atacar muito rapidamente.
¾ Já está sabendo que estamos chegando!

¾ Isso mesmo. Vou falar com a perícia. Rápido com esse retrato.

CAPÍTULO XI

       Voltei à sala onde a perícia já estava trabalhando. Todo mundo muito nervoso. Não pelo assassinato que isso eles estavam mais que acostumados. O que havia sobre todos era uma pressão dos superiores. Aquilo estava transformando a polícia e a secretaria de segurança no alvo perfeito para a oposição. Além de acabar com a credibilidade do prefeito. Quando pobre morre é nota de rodapé mas essas mortes são manchetes de primeira página. Tirando o Eduardo, os outros dois morreram em locais públicos. As pessoas já se sentem inseguras nessa cidade e isso vai tornar ainda pior o caos que nos encontramos.
       O pior é que os legistas não me dizem nada de animador. Vão levar o cadáver e fazer uma autópsia. O restante era o que eu já sabia. Garganta cotada com perícia, o mesmo bisturi foi usado pra fazer o corte no abdômen e para dilacerar os tendões dos pulsos. Tudo muito rápido e sem muitas sutilezas.
       Era isso o que eu tinha para trabalhar. Tinha esperanças que Cláudio chegasse a DP com maiores informações, inclusive o retrato falado do cúmplice e a história toda.

CAPÍTULO XII

Na delegacia me reuni com o Cláudio para saber minúcias da entrevista com a enfermeira já que os legistas não puderam ajudar muito.
Olhei as descrições demoradamente. Tinha alguma coisa estranha ali. Sem tirar os olhos dos retratos e fotos que tinha sobre a mesa ouvi o relato.
Os dois se conheceram no bar perto do Hospital e a marcaram um encontro em um outro bar. Lá a moça bebeu um pouco a mais e acabou esticando a noite.
¾ Eles chegaram a sair do bar e ir pra um motel ou coisa assim?
¾ Ela primeiro disse que não, ¾ começou Cláudio ¾ depois abriu o jogo.
¾ O que ela disse?
¾ Falou que o cara era bonitão e não teve como resistir. Foram para um motel e depois ele a levou até sua casa. Pegou o telefone e prometeu ligar.
¾ Você não desconfiou dessa garota nem por um segundo.
¾ Por todos os segundos, Dumas. Antes de falar com ela investiguei sua vida. ¾ Sorri sem querer pensando que eu havia treinado bem aquele garoto. Foi um incentivo que faltava pra ele desabar a falar.
¾ Olhei sua vida profissional e é impecável, bem como seu trabalho de mais de três anos  no hospital sem nenhuma advertência. Mais de uma pessoa confirmou que o encontro foi casual. E suas amigas ainda a incentivaram a sair com o cara por que era muito bonito. ¾ Falou com desdém enciumado. Ri disso também e ele fingiu não notar.
¾ Ela é bonita.
¾ Simpática é a palavra.
¾ Desde quando você virou um cavalheiro?
¾ Porra, Dumas. Eu sairia com ela se é isso que você quer saber. Uma moça boa de conversa, espirituosa.
¾ Ela jura que ele era homem?
¾ Que pergunta é essa? O cara levou a moça pro motel e ela estava deslumbrada! É claro que o cara é homem. Ou finge muito bem.
Parei pra olhar de novo os retratos falados e as fotos. Comparando os traços e ruminando uma idéia diferente.
¾ Estou perguntando por que as características da criminosa e desse sujeito se confundem de maneira estranha. ¾ Comecei a análise colocando as fotos e o retrato lado a lado. ¾ Olhe comigo as fotos e veja a descrição. ¾ Olhamos para as fotos.
¾ Mesma altura, mesma cor de pele, mesma faixa etária. E esse rosto se parece demais com as fotos da gravação na faculdade. ¾ Continuei observando. ¾ Agora veja isso.
Pintei uma peruca loira em um papel transparente e coloquei em cima do retrato falado.
¾ O que você acha?
¾ Caralho, Dumas. Sei lá. Não vejo tanta semelhança assim.
¾ Você precisa apurar a visão e deixar o preconceito de lado.
¾ Mesmo assim não sei...
¾ Vamos dar uma nova olhada nas gravações.
¾ Você é quem manda.
Fomos para a sala de vídeo e repassamos a fita algumas vezes.
¾ Cláudio, você sai bastante com mulheres, não? ¾ Ele me olhou sem entender o motivo da pergunta.
¾ Um pouco, por que?
¾ Não está estranhando um pouco o jeito que ela caminha? ¾ Voltamos novamente a fita.
¾ Olha o jeito como ela anda, mexendo no cabelo ¾ Continuei com minhas suspeitas.
¾ Agora que você falou estou achando ela um pouco exagerada. Sei lá, alguma coisa estranha...
¾ Cláudio, nós somos duas bestas. ¾ Eu estava indignado com a minha falha na investigação. Olhei para o meu parceiro e vi sua cara de ponto de interrogação.
¾ Como nós não percebemos isso? ¾ Fiz uma pausa exagerada. ¾ Não é ela é ele.
¾ O que? Como assim, Dumas?
¾ Preste atenção! Ele pode ser um ótimo ator, mas esse não é o modo como uma mulher anda por aí. Os trejeitos são um pouco forçados. O nosso assassino é um homem disfarçado e se passando muito bem por mulher.
Cláudio praticamente tomou as fotos e o retrato das minhas mãos e colocou a fita de novo:
¾ Porra, Dumas! Por isso que ele passou tranqüilamente por nós no hospital.
¾ Exatamente. Tirou o disfarce e saiu pela porta da frente e deve até ter te cumprimentado quando passou.
Seria muito engraçado se não fossem nossas cabeças em jogo nesse momento.
¾ Tenho uma reunião para explicar em que pé está o caso e sei que vai estragar a minha noite, sem contar o tempo perdido. Fique atento a qualquer chamada suspeita. Pode interromper a hora que quiser. Algo me diz que isso ainda não acabou.
¾ Mas agora? ¾ Reclamou Cláudio olhando para o relógio de pulso.  Olhei para o meu e marcava dez pra uma da manhã. O tempo voa quando estamos nos divertindo
¾ Não. Amanhã antes das oito.
¾ E você vai ficar aqui?
¾ Vou. Você vá pra casa e durma. Preciso que você esteja alerta amanhã.
¾ E você?
¾ Não vou conseguir dormir. Prefiro ficar por aqui. Tem uma sinuca aqui do lado. Vou dar uma olhada nas pistas todas e ver se consigo achar uma ou outra coisa que deixamos passar e pensar sobre isso com um pouco de vodka.
¾ Minha irmã tinha razão em te largar. Cara, como você é obsessivo!
¾ Obrigado. Agora que você já expressou sua opinião pode dar o fora.
¾ Vou é tomar umas por aí. Estou com o saco cheio dessas gargantas cortadas e assassinos travestidos. ¾ Saiu batendo a porta. Bem ao estilo policial durão americano dos filmes que ele tanto gosta.
Voltei as minhas pistas. Um monte de retratos falados, fotos de garotas que na verdade não são o que parecem, fitas de vídeo ruins e descrições descabidas.
O assassino havia atuado muito bem até aqui. Nos despistou usando disfarces e inteligência. Planejou com muito cuidado os crimes tendo em vista sempre uma alternativa de fuga como testemunhamos no hospital. Conhece a fundo as pessoas e os lugares onde realizaria os assassinatos. Isso é fruto de estudos, pesquisa e trabalho de campo. Deve ter começado o planejamento há muito tempo, além das óbvias qualidades e conhecimentos. Os cortes são precisos feitos por alguém que conhece bem anatomia e bisturis. E sua nova faceta de ator podendo tanto se passar por homem ou por mulher só aumentam os recursos do criminoso.
       Um caso e tanto. Não sabia se ele era um gênio ou um psicótico. Acho que um pouco do primeiro e muito do segundo. Podia ser também algum profissional muito bem pago. Conheci alguns assim e esse não está na minha lista.
As perguntas eram muitas e as respostas poucas.
O que levava alguém a cometer esses crimes? Dinheiro? Vingança? Loucura?
O que ligavam os mortos era terem estudado no mesmo colégio. Eduardo e Demétrius ainda se viam e mantinham relação. O médico aparentemente nunca mais vira seus companheiros de sala.
Outra coisa que me preocupava era se haveria ou não novos crimes. Sabemos que há um tipo de criminoso que toma gosto pelo que faz e fica bem difícil de parar. Seria ele um desses? Não estava absolutamente seguro disso.
Fechei um pouco os olhos e adormeci quase imediatamente.

CAPÍTULO XIV

Um sono cheio de ruídos e luzes veio a mim. Mesmo adormecido os barulhos da delegacia eram processados pelo meu cérebro. Quando entrei naquela zona profunda, no limiar do sonhar, comecei a ter um pesadelo recorrente.
Um dos traumas que nem psicólogos nem a bebida poderiam curar. O sonho começa com um dia claro. A luz do sol torna o ar translúcido além do normal. Sentia que podia ver coisas que, em geral, não poderia. Abelhas em vôo a procura de pólen, pequenas aranhas, cada fio dos cabelos de Helena e Cristina que brincavam juntas na gangorra. Podia ver cada movimento das pessoas que estavam no parque arborizado e muito arrumado. Os pássaros revoavam em volta das pessoas sem medo, bem como pequenos animais passeavam por entre as crianças. Um paraíso fantástico de contos de fadas. E no meio disso tudo minha pequena Helena transbordando de beleza e alegria. Dando gritinhos de prazer cada vez que Cristina a empurrava mais e mais alto.
Os brinquedos nos lugares certos, as crianças lindas. Com roupas festivas. Tudo limpo demais. A estranheza que transforma um sonho bom em pesadelo, uma sensação que algo terrível estava prestes a acontecer. Sei que esse lugar não existe, sei que isso é uma invenção. O mundo é cruel e a felicidade não pode durar. Quando esses pensamentos me invadem tudo começa a nublar. O ar já não é tão brilhante. As crianças não são tão bonitas. Nuvens encobrem o sol e o dia claro se transforma num dia lúgubre. Sinto o mau agouro dos pesadelos.
Minha Helena continua se divertindo mas agora o brinquedo não me parece tão seguro e Cristina vê isso mas não para de empurrar cada vez mais alto.
Os gritinhos de prazer se transformam em gritos de desespero. Minha esposa ri enquanto eu tento desesperadamente chegar até Helena. Nos pesadelos as pernas pesam toneladas. O chão fica gosmento e nenhum esforço é suficiente para chegar onde é preciso.
Cristina continua rindo. Eu vejo que Helena pode cair e sinto que essa queda vai ser fatal. Tento correr e as pernas não ajudam, tento gritar e não sai som nenhum da minha boca. Fico completamente a mercê do sonho e a sensação de impotência me enche de fúria.         
Olho para minha filha e sinto seu terror aumentado pela indiferença de Cristina que parece se divertir com tudo isso. Minha cabeça tenta me dizer que isso é só um sonho e que eu posso controlar, me diz pra me concentrar que eu posso vencer. Não dá certo, o pânico me domina e tudo vai se tornando mais e mais sombrio até que minha filha é atirada do balanço num salto rumo à morte. Como na vida real eu não consigo chegar a tempo de evitar o acidente. Acordo com o despertador do celular avisando que tinha 5 minutos ante da meia noite. Hora de sair.
Fui tomar um café. Comer qualquer coisa para tirar esse gosto metálico da boca e depois um pouco de sinuca até a madrugada.
Estava louco pra sair dali e ir ao bar jogar um pouco e tomar alguma coisa gelada com muito álcool.
Eu ia tomar um porre e esperava que Cláudio chegasse em forma pra fazer o trabalho pesado.







Desde a adolescência Cláudio me perturbava com perguntas sobre a polícia. Tinha uma fixação. Adorava todos esses seriados enlatados e sonhava em ser policial. Era o cunhado chato que vinha aos domingos em casa para almoçar e me ouvir contar histórias.
Durante os oito anos que fiquei com Cristina o adolescente cresceu e acabou ficando dono do seu nariz. Fez faculdade de direito e prestou concurso.
Sua família era rica e detestava a ideia de ter no garoto um policial. Alegavam que ele nunca seria ninguém. Que já bastava um, que no caso era eu, não precisavam de outro arriscando o pescoço pra ganhar trocados.
Quanto mais falavam mais a vontade dele crescia. Eu não podia fazer nada, apesar de Cristina quase me implorar para que eu desse um jeito do rapaz não passar nas provas. Não teve remédio. Cláudio foi muito bem no concurso e não seria eu que tiraria seus méritos.
Minha relação com a família já não era das melhores e ficou péssima.  Minha sogra me odiava duplamente. Um por que casei com sua filha e dois por que ela achava que eu tinha feito a cabeça do filho para ingressar na polícia. Mal sabia ela o esforço que Cristina e eu fizemos pra tirá-lo desse caminho. Mostrei até minha folha de pagamento. Seu pai retirou toda a ajuda que dava ao garoto. Cláudio não estava nem aí. Com o tempo ele se mostrou um policial muito eficiente e continua aprendendo. Um pouco teimoso mas bastante esperto ao seu modo.
Sua entrada na policia abalou de vez meu casamento que já não andava as mil maravilhas. Cristina tinha agora preocupações comigo, com o irmão e ainda nossa filha Helena que crescia rapidamente. Digo rapidamente por que eu pouco a via. Estava sempre ocupado. Trabalhando, em diligências perigosas ou no bar jogando sinuca e conversa fora com o pessoal do teatro. Sempre atrás de criminosos ou de uma mesa de pano verde e atrás de mim um cunhado a tiracolo tentando aprender e sobreviver.
Quando aconteceu o caso em que coloquei as duas em risco tudo desabou. Cristina fez o certo, pegou Helena e desapareceu. Me achei o pior dos homens, péssimo mesmo, porque a única coisa que conseguia sentir era alívio. Estava livre depois de oito anos. O casamento foi um erro e eu só vi isso depois da separação. Eu estava aliviado e minha filha podia crescer sem o peso do pai que podia atingi-la a qualquer momento.  ]
Nessa fase Cláudio ficou ao meu lado durante um tempo. Me acompanhava nas minhas longas noites de bar, bebidas, sinuca e uma ou outra mulher. No começo ele havia gostado muito daquele mundo diferente do dele. Mulheres interessantes e loucas, muitas drogas e gente falando sobre todos os assuntos. Logo viu que aquele mundo, que parecia mais profundo que o seu, na verdade era tão fútil quanto, só que de uma outra maneira. A vida é cruel. Entediado, voltou para a sua roda de amigos para alívio da sua família.
O certo é que o rapaz comprou uma enorme briga com seu pai quando ficou do meu lado. Ele conhecia meu trabalho e sabia que eu não tinha nenhuma culpa com o que aconteceu.
Fico muito agradecido por ele ainda não ter desistido de mim, apesar dos meus esforços para que isso aconteça. Acabamos nos tornando amigos muito mais por culpa dele. Sou um chato.
       Pensava nisso enquanto passava giz no taco e me concentrava no jogo. Estava perdendo pra um mané, isso é desatenção, minha profissão não admite desatenção. Voltei a me concentrar no jogo, não sem antes tomar mais uma dose de coca com vodka e muito gelo. O verão nessa cidade é criminoso.

CAPÍTULO XV

O secretário de segurança pública mandou avisar que iria se atrasar alguns minutos para a reunião. O aviso me tirou da sonolência que se abatia sobre mim junto com uma tremenda ressaca.
Aqueles minutos podiam muito bem se transformar em horas. Aproveitei e fui tomar um café com alguma coisa para espantar a sono e tirar o mau hálito. Enquanto isso repassava toda a história mentalmente. Precisava da pista final que ligaria o assassino a todos os crimes. Havia acontecido alguma coisa na época do colégio, disso eu não tinha dúvidas, mas o suspeito parecia jovem demais para se lembrar ou mesmo para ter participado dos acontecimentos da época. Ele podia ter sido contratado por alguém que ainda não apareceu. Essa era a hipótese mais plausível até aqui. Hipóteses, um monte de retratos-falados e mais algumas pistas eram o que havíamos descoberto até então. Não tinha muito mais para apresentar.
Não iria ser uma reunião fácil.
Tomei o café que desceu amargo e queimou o estômago. O pão com manteiga só ajudou a aumentar a fornalha. Precisava de um antiácido e uma aspirina com urgência. A ressaca queria me matar. O remédio ainda fervia no copo quando vieram me chamar:
¾ Dumas, o chefão chegou e estão te chamando. ¾ Um dos policiais do plantão passou pra me avisar.
¾ Já estou indo. ¾ Respondi engolindo o remédio e arrumando a papelada. ¾ Escuta, o Cláudio já chegou?
¾ Ainda não.
¾ Assim que ele aparecer peça pra me procurar?
¾ Peço pra interromper a reunião?
¾ Se for algo urgente, pode interromper sim.
¾ Certo, Dumas.
¾ Obrigado.

Entrei na sala e meus dois chefes me esperavam. O delegado estava sentado com o semblante serrado. Seu terno estava tão amarrotado quanto seu rosto. Ele parecia bastante cansado e eu podia imaginar a pressão sobre aquele homem.
O secretário de segurança olhava pela janela. Seu terno estava muito bem passado e seu semblante era bem menos carregado, ainda assim podia ver as nuvens se formando em torno dele. Logo a tempestade desabaria sobre todos nós.
¾ Bom dia, senhores. ¾ Eu esperava que eles tivessem a gentileza de não comentar o cheiro de álcool que exalava de mim por todos os poros.
¾ Bom dia, Dumas. ¾ Respondeu o delegado.
O secretário continuava absorto em ver a paisagem da janela. Provavelmente olhando e não vendo nada, apenas pensando no que me falaria e como trataria o caso. Resumindo pensava que seu rabo estava na mira de um belo par de botas se ele não tivesse algum resultado rápido.
¾ Bom dia, detetive Dumas. O senhor tem alguma novidade para melhorar meu dia. ¾ Quebrou o silêncio momentâneo.
¾ Não muito mais do que o senhor já sabe. ¾ Ele continuou olhando a paisagem. Ficou assim por uns segundos e virou-se para me encarar.
¾ Coloque toda a situação até agora. Preciso de respostas e alguma munição para me defender. A imprensa e a opinião pública estão em cima e vão pedir minha cabeça se eu não mostrar progresso. Em breve essa pressão será transferida para vocês. A menos, é claro, que tenhamos uma solução do caso.
Esperei com calma o secretário desabafar e isso me deu tempo de pensar numa forma de alimentarmos a imprensa e deixarmos a opinião pública num compasso de espera. Enquanto ele acabava de falar eu já imaginava um jeito de satisfazer as forças políticas que certamente estavam envolvidas.
¾ Não tenho ainda a solução do caso. O que posso oferecer é um paliativo. Um pouco de munição como o senhor mesmo disse. ¾ Comecei medindo minhas palavras. ¾ Continue. A essa altura qualquer boa ideia é mais que bem-vinda. ¾ Respondeu o secretário sem acreditar muito nas próprias palavras.
¾ Podemos revelar algumas coisas que a imprensa ainda não sabe e isso nos dará créditos e tempo para agirmos e pegarmos o criminoso.
¾ Que história é essa de criminoso? Não era uma mulher a autora dos assassinatos? ¾ Interveio o delegado que até então se mantivera em silêncio.
¾ Ninguém sabe ainda e nem eu tenho certeza. As pistas levam a um homem que se disfarçava. Na verdade se travestia com muita eficiência. Conseguiu enganar todo mundo até agora.
¾ Como você descobriu? ¾ Argumentou o secretário, aguçando também a curiosidade do delegado.
Contei-lhes tudo que havia descoberto até ali. Abri um envelope com fotos para as comparações. Comecei pelas perucas de cores diferentes que aparecem em todos os crimes. Até aí tudo bem, parecem disfarces normais. Depois mostrei as fitas e comentei sobre o jeito de andar. A força que a suposta garota precisava ter para cometer todas aquelas atrocidades. E por fim a história da enfermeira que perdeu suas credenciais culminando com a fuga do assassino debaixo dos nossos narizes dentro do hospital, quando um dos policiais achou o disfarce inteiro na lata de lixo. Entrou como mulher, nós procurávamos uma mulher e saiu sorridente como homem sem levantar suspeitas.
¾ Você pode ter razão. ¾ Ainda duvidou o delegado.
¾ Com ou sem razão podemos usar isso para a imprensa. É um ótimo furo e realmente vai acalmar os ânimos por algumas horas. ¾ Continuou o secretário. ¾ E o que mais temos?
Falei das ligações das vítimas. Todos se formaram na mesma turma do colégio e mantinham uma discreta, porém constante, relação de amizade. Falei até da incrível coincidência que foi a morte do aposentado nas mesmas circunstâncias poucos dias antes e só encontrado depois que os crimes começaram. E a maior das coincidências. Eu havia descoberto e, até aquele momento não tinha revelado pra ninguém, que o aposentado havia trabalhado no mesmo colégio no período em que as vítimas se formaram.
Estava claro que não eram apenas coincidências. Havia algo que ligaria todos os envolvidos. Apenas não sabia o que.
¾ Ser um homem e não uma mulher poderá ser seu maior trunfo. Isso geraria notícias e boatos. Uma confusão que nos dará tempo. O senhor pode revelar o que quiser. Só gostaria que isso fosse numa entrevista coletiva amanhã pela hora do almoço.
¾ Por que o prazo? ¾ Perguntou o delegado.
¾ Estamos muito perto do assassino. E pelo que aconteceu no hospital, ele sabe perfeitamente disso.
¾ E você acha que esse assassino vai agir até amanhã? ¾ Interveio o secretário.
¾ É só um palpite. Se essas informações vazarem muito rapidamente, perderemos a chance de surpreendê-lo no caso de outro assassinato e, se não agir, ele poderá tentar uma fuga e agora nós temos um retrato falado dele. Claro que ele tem como se disfarçar e se passar por outra pessoa com facilidade, mas estamos no caminho.
¾ Já antevejo as manchetes: “Madame Guilhotina é um travesti.” ¾ Ironiza o delegado.
¾ Não vão faltar piadas, podem ficar tranqüilos e isso pode desacreditar um pouco o caso. Pode ser que assim eles nos deixem um pouco em paz e a investigação prossiga de uma forma mais profissional. ¾ Continuei.
¾ Vamos virar motivo de chacota. ¾ Preocupa-se o delegado. ¾ A polícia vai ficar desmoralizada.
¾ Isso tudo passará se o Dumas pegar o criminoso ou pelo menos algum suspeito para interrogatório. ¾ Continuou. ¾ Quero que vocês peguem o criminoso. Ou alguém pra gente apresentar a imprensa. O restante pode deixar que eu resolvo. ¾ Disse o secretário segurando meu ombro. ¾ Dumas, você tem 24 horas. Me traga alguém. Por enquanto vou dizer que estamos a um passo de capturar o assassino. ¾ Com isso o secretário pôs fim à reunião.
¾ Espero que tenhamos novidades.
Antes que deixássemos a sala, Cláudio interrompeu a seu modo pouco sutil abrindo a porta sem bater.
¾ Desculpe, senhores. ¾ Disse um pouco afobado ao ver o delegado e o secretário. ¾ O Dumas pediu para interromper se acontecesse alguma coisa.
¾ E então? ¾ Perguntei.
¾ Estamos atendendo a várias ligações de denúncias e você tem que dar uma conferida!
¾ O que é?
¾ Algumas são bastante sérias. Temos até alguns pedidos de proteção policial. Parece que vamos descobrir o mistério. Tem muita gente se borrando por aí, com o perdão da palavra.
¾ Com licença, senhores. Acho que nosso amigo vai agir antes até do que esperávamos.
¾ Espero que hoje seja meu dia de sorte! ¾ Interveio o secretário.
¾ Eu também. ¾  Respondi. ¾ Até mais tarde.

CAPÍTULO XVI

Saímos, apressados, da sala de reunião.
¾ Não vai me agradecer por ter te tirado daquela chatice? ¾ Interrogou Cláudio com um sorriso irônico pregado nos lábios. ¾ Aliás, o que você bebeu ontem, está cheirando a álcool de limpeza. ¾ Continuou rindo.
¾ Você já viu vodka em garrafa de plástico.
¾ Nunca! ¾ Agora era quase uma gargalhada.
¾ As garrafas plásticas não fazem parte do seu cardápio?
¾ Não as de vodka. ¾ Mais sério, Cláudio mudou de assunto. ¾ E a reunião? Como foi?
¾ Alguém tem que fazer a política. Ou você pensa que isso aqui é só pegar bandido?
¾ Isso é uma merda! A gente devia só cuidar da segurança mesmo. Pegar os bandidos como você disse, ir atrás de traficante, contrabandista, político corrupto.
¾ Só que a vida não é assim. Entenda que qualquer tomada de decisão é uma atitude política, Cláudio. Não dá pra fugir. ¾ Continuei o argumento. ¾ Nós só conseguiremos melhorar aqui dentro se atingirmos os meios políticos. E não estou falando em conchavos. Falo em mostrar os resultados e fazê-los chegar a quem importa. Se as notícias chegarem nas pessoas certas e houver interesse, vão ser os políticos que irão melhorar a nossa vida aqui dentro.
¾ Então fodeu. Estamos nas mãos dos caras?
¾ Sempre estaremos nas mãos de alguém. Tem sempre um mais forte que realmente pode foder a sua vida. Por isso a política. A tal da diplomacia. A troca de favores. ¾ Continuamos pelos corredores. ¾ Tem um ditado árabe que diz que um homem gordo sempre pode foder sua vida! No nosso caso são os nossos chefes políticos. Só fazer um trabalho perfeito não é o suficiente. Precisamos de envolvimento.
¾ Caralho, Dumas! Você ficou meia hora com o secretário e saiu falando que nem ele. ¾ Divertiu-se, Cláudio.
¾ Eu tenho que fazer o jogo para conseguir realizar bem meu trabalho e evitar maiores dores de cabeça. Se eu conseguir melhorar nossa vida com os políticos teremos mais cobertura pra realizamos alguma coisa aqui dentro.
¾ Claro que tem a galera que estraga o trabalho.
¾ Isso acontece em todo lugar e em qualquer empresa. Não pensa que só por que somos os mocinhos não temos nossos defeitos.
¾ Lógico que temos, e muitos!
Chegamos à mesa do detetive que se apinhava de papéis.
¾ Você é a desordem em pessoa. ¾ Disse olhando para a bagunça.
¾ Fica tranqüilo que eu me acho. Minha bagunça é organizada.
Pegou umas anotações no meio de um bloco de papel um tanto amassado.
¾ Aqui esta. Dá uma lida. Foram essas seis pessoas que ligaram. Quatro homens e duas mulheres.  Todas estão desesperadas pedindo proteção policial.
Peguei a lista. ¾ Menos gente do que eu esperava. ¾ Pensei alto e Cláudio continuou.
¾ Vamos ter que adivinhar quem ele vai atacar agora?
Olhei para as anotações analisando rapidamente o que deveríamos fazer.
¾ Não temos que adivinhar nada. As mulheres provavelmente estão fora do raio de ação mas vou checar mesmo assim. Iremos mandar agentes para garantir a segurança dessas pessoas assim que eu falar com cada uma delas. Tenho certeza que saberemos quem precisará de maiores cuidados. ¾ Peguei o telefone e comecei a discar o primeiro número ainda falando com Cláudio. ¾ Quando você recebeu essas chamadas?
¾ Agora a pouco. Acho que essas pessoas tomaram o café da manhã ouvindo os noticiários e se engasgaram. Os repórteres já chegaram as mesmas conclusões que nós. Exceto que a madame Guilhotina é um homem. O lance do colégio foi o que pegou. Todas essas pessoas eram da classe colegial das vítimas. Estão na sua lista... ¾ Pedi para parar. Atenderam no outro lado da linha. Uma mulher.

CAPÍTULO XVII



Ouvi atentamente as seis pessoas e todas elas estavam desesperadas e pedindo ajuda. Depois de algumas perguntas rápidas já sabia por onde deveríamos atacar. Somente uma delas é que sabia realmente no que estava envolvida. Tinha certeza disso. E as mulheres não tinham a menor noção do que estava acontecendo. Nosso assassino procuraria os homens.
¾ E então?
¾ Vamos bater na casa desse tal Pedro Alcântara.
¾ Tem certeza?
¾ Se tem alguém que sabe o que está acontecendo é ele. Mas não quis falar muito por telefone. Um jeito de fazer a gente ir até ele e fazer uma segurança. Está realmente assustado.
¾ Como você sabe?
¾ Ele contou coisas que nenhum outro sabia e já está de malas prontas para umas férias fora do país.
¾ Você convenceu o cara a ficar?
¾ Na verdade se ele é o próximo já deve estar sendo vigiado. Seu avião só sai daqui a quatro horas e ele me pediu uma escolta até o aeroporto.
¾ Você vai deixar o único que pode nos levar ao assassino ir embora?
¾ Vamos colar nele. Nosso matador já deve saber da viagem e pode ser que tente alguma coisa antes dele embarcar ou até embarcar junto e seguí-lo. De qualquer maneira temos uma chance grande de pegá-lo.
¾ O cara está com medo mesmo.
¾ Se borrando como você disse. Por medida de segurança mande dois homens pra cada pedido de socorro.
¾ Certo.
¾ E nós vamos ver o tal senhor Pedro. Ele parece ter muito mais a dizer do que quis demonstrar. Teremos que apertá-lo um pouco e acredito que ele vai contar tudo que está acontecendo. Tem muita coisa que não se encaixa e ele tem as peças certas. O envolvimento de todas essas pessoas vai fazer essa história feder muito mais do que esse punhado de cadáveres.
¾ Você acha mesmo que tem mais coisa no meio, não é?
¾ Tenho certeza que esses caras fizeram alguma coisa juntos. Só não sabemos o que e pra quem. Seja o que for deixaram alguém com muito desejo de sangue.
¾ Vingança? ¾ Cláudio sendo lacônico era coisa rara.
¾ É o que vamos descobrir.

Rapidamente Cláudio deu as ordens e passou os endereços das prováveis vítimas. Não podíamos perder nem um minuto mais. Nós dois ficaríamos com a pista mais quente.
       Parece que finalmente teríamos uma chance de nos defrontar com “Madame Guilhotina” e o Cláudio estava bastante excitado com a situação, aliás ansioso demais para entrar em ação. Eu sabia que a adrenalina era sua grande fraqueza. Ficar exaltado pode ser ótimo para algumas das suas aventuras mas não me ajudaria nesse tipo de missão delicada. O assassino era um sujeito frio que se aproveitaria de cada descuido nosso. Minha certeza era de que se o criminoso precisasse matar mais gente não hesitaria por nem um segundo e eu queria todo mundo vivo no final inclusive o assassino. Minha missão era levá-lo para julgamento e a justiça é que diria qual a pena. Fiz questão de deixar isso bem claro para meu parceiro. Tínhamos que nos manter calmos e com as cabeças focadas no alvo.
       Cláudio conseguira dormir um pouco, tomado banho e feito a barba. Sua aparência era ótima e eu parecia mais um mendigo todo amassado pelas noites mal dormidas e a ressaca que começava a dar uma trégua. Invejei o estado de ânimo dele. Sempre bem disposto para sair em diligência. Por ele a vida seria uma eterna montanha russa. Tudo muito simples. Os do lado de cá são os mocinhos e os de lá são bandidos. Sem mais perguntas. Só que no fundo eu sei que ninguém é tão maniqueísta a esse ponto. Os Super-heróis do cinema e dos gibis não saem das telas nem das páginas de revistas. Ninguém é tão preto no branco. Estamos mais pra um amontoado de tons de cinzas com nossas qualidades, defeitos, desejos, preconceitos e tantas outras coisas que não nos fazem parecer muito normais vistos de perto.
Cláudio sabia disso. Dentro da polícia mesmo existia um lado ameaçador. Ninguém era totalmente confiável. Vazamento de informações, propina correndo solta, desaparecimento das apreensões de droga, conchavos políticos pra livrar a cara dos safados. Tantas coisas e muitas mais aconteciam bem debaixo dos nossos narizes e nada podia ser feito. A moeda corrente era a grana e não a ética profissional. Ser conivente é uma forma de sobreviver e tentar fazer as coisas de um outro modo. Por isso esse lance de bandido e mocinho não era exatamente como ele gostaria que fosse.

        Saímos do DHPP e a cidade já estava um forno. Um calor de 37 graus dentro da estufa de gás carbônico que é São Paulo no verão. Poluição e muito calor. A gente reza para chover e quando chove a cidade alaga e a gente reza de novo, para parar de chover. O inferno que vira a cidade deixa todo mundo com os nervos mais aflorados que o normal e ainda tinha o trânsito do final de ano. Uma cidade que acolhe qualquer um que chega. Você pode andar por aí e não se sentir um estranho. Ninguém te olha diferente, na verdade as pessoas ignoram umas as outras. São Paulo acolhe realmente só que não abraça ninguém.

CAPÍTULO XVII

Chegamos rapidamente à residência do senhor Pedro. Bela casa na esquina de uma rua calma da Vila Mariana. O lugar tranqüilo e arborizado permanecia com algumas poucas ruas que relembravam uma metrópole mais humana, sem tantos edifícios, sem tantos automóveis e com alamedas largas, cheias de praças. Um mundo mais romântico que devia custar os olhos da cara hoje em dia e que era devorado rapidamente pela quantidade de novos condomínios que nasciam e se multiplicavam como ratos. Em breve ficaria como qualquer outra parte da cidade.
Cláudio estacionou o carro em frente à casa e descemos. Havia um portão de madeira pequeno e um maior que era uma das entradas da garagem. De resto um muro alto coberto por unhas-de-gato envolvia a casa toda e escondia a beleza da antiga construção, muito bem restaurada. Atrás do portão podíamos ver uma primavera podada com cuidado e coberta de flores brancas que se espalhavam por cima do muro.
Um carro da telefônica estava do outro lado da rua. Ao seu lado uma escada vazia colocada no poste vizinho. Essas eram as únicas coisas que atrapalhavam a perfeita ordem idílica do quadro.
O som da campainha despertou um sonolento cachorro que latiu, preguiçoso, ao longe, em outra casa. Nenhuma resposta. Tentamos de novo e ao mesmo tempo virei a maçaneta do portão. Abriu em silêncio. Olhei para o Cláudio que imediatamente compreendeu e sacou a arma. Por gestos pedi calma. Ele iria me dar cobertura e entramos rapidamente pela garagem.
Antes de continuar pedi pra ele ligar pro DP e dar as coordenadas e pedir uma viatura de reforço. Fez isso sem muitos ruídos e com presteza. O seu tom era de urgência.  Continuamos entrando na casa, encostados na parede pelo largo corredor lateral até uma porta que parecia ser a entrada principal. Havia um homem inconsciente ali. A cabeça sangrava. Devia ser o rapaz que fazia a segurança da casa. O tal Pedro falou que havia contratado uma pessoa desde que sentiu a ameaça das mortes. Parece que não resolveu seu problema.
Invadimos a casa correndo em silêncio. Armas em punho, com pressa, já sabendo os riscos envolvidos.  Entramos pela cozinha, passamos pela sala de jantar sem reparar em nada estranho até ali. Depois a sala de estar e um susto. Demos de cara com uma moça amarrada e amordaça numa cadeira. Quase Cláudio apertou o gatilho por reflexo. Ela arregalou os olhos e os movimentos fizeram sua cadeira balançar. Grunhia e tentava nos dizer alguma coisa. Com gestos pedi calma e silêncio. Mostrei minhas credencias de policial. Retirei a fita da sua boca e ela teve que segurar um grito de dor. Sussurrei para ela me dizer o que estava acontecendo. A pobre moça falava atropeladamente que o senhor Pedro era refém de um louco e estavam em um dos quartos no andar de cima.
Não sabíamos o que poderíamos encontrar. Subimos as escadas e topamos com um corredor imenso. No fundo, uma ante-sala que levava aos quartos. Quatro portas fechadas. Abrimos a primeira bruscamente. Entrei enquanto Cláudio me dava cobertura. Ouvimos murmúrios horríveis saindo do último quarto. Corremos pelo corredor. Dessa vez Cláudio entrou no quarto enquanto eu dava cobertura.
 Chegamos a tempo de ver a vítima se esvaindo em sangue. O corpo estava nu e todo retalhado em cortes finos. Sangrava por todos os lugares em especial pela garganta como os outros mortos. A cena nos pegou de surpresa. Os olhos fora das órbitas pediam socorro. Ele estava sufocando com o sangue. A respiração era algo molhado e feio.
Tentava apontar com todo seu corpo para a janela. O assassino havia pulado e o vi saindo pelo portão. Suas roupas eram o uniforme da empresa de telefonia.
Pedro agonizava, perdendo sangue pelo corte certeiro e profundo na jugular. Os outros tantos pelo resto do corpo não eram ferimentos fatais, serviam somente para infligir dor, numa espécie de tortura antiga. Tentei estancar o sangue da jugular.
¾ Cláudio, ajuda aqui, porra! ¾ Gritei para ele tentando conter a hemorragia.
¾ Caralho, Dumas! Vou atrás do cara!
¾ Ponha as mãos aqui e segura. ¾ Agarrei uma das mãos do Cláudio e enfiei pelo corte fazendo seus dedos seus dedos comprimirem a veia que sangrava sem parar. Sabia que as chances eram menos que mínima, mas tinha que tentar. O único jeito de tentar salvá-lo era fechando a artéria e estancando a hemorragia.
Era muito sangue e havia os gritos que morriam na garganta do Pedro como um murmúrio horrendo.  Gelavam o sangue. Cláudio aguentou firme.
¾ Chama uma ambulância com o celular! Vou atrás dele. Esse cara é meu.
Desci correndo sem prestar atenção ao que ele tinha a me dizer nem o que a moça ainda amarrada gritava sem parar.
No jardim ouvi o carro arrancando. O criminoso havia se disfarçado para cometer esse crimede maneira diferente do usual e entrara na casa como um agente de telefonia. Ninguém suspeitaria se ele tivesse todas as credencias. Vi o carro dobrando a esquina quando arranquei ligando a sirene.
A sorte é que o carro usado na fuga era da empresa. Muito fácil de ser seguido pelo seu colorido verde e azul. Chamei reforços pelo rádio dando minha localização. Dessa vez ele não parecia ter um plano de fuga alternativo, talvez não tivesse tido tempo de preparar um. Não escaparia.
       Descia como um louco as ladeiras da Vila Mariana sempre em direção ao sul e eu atrás segurando a respiração e torcendo pra que as pessoas ouvissem a sirene e nos deixassem passar sem acidentes.
Não havia como fugir. Mais abaixo apenas o começo da Imigrantes e todas as rotas já estavam sendo  tomadas por policiais.
Ignoramos os semáforos e cruzamentos. Apenas uma corrida desesperada dele e minha logo atrás. Não podia perdê-lo de maneira alguma.
Eu estava tão perto que já podia ver seus olhos no retrovisor do carro quando uma criança atravessou a rua na frente do assassino. Ele teve muita habilidade pra desviar e deixar o problema pra mim. Uma criança, petrificada no meio da rua, com um rosto que era só olhos. Não deu tempo de rezar. Fiz apenas um pedido mental pra ela não se mexer. E tirei o carro da linha do atropelamento derrapando e batendo nos carros que estavam estacionados ao lado da calçada. Arranquei alguns retrovisores e arranhei, consegui controlar a situação mas perdi tempo precioso. Ele ganhara um pouco a dianteira. Isso não me preocupava muito agora que recebia informações no rádio que já tinham carros fazendo todo o cerco. Ele não escaparia. Mesmo assim acelerei de novo pra chegar perto do criminoso.
Quando achei que estava resolvido vi o carro da telefônica entrando loucamente em uma ruela estreita. Voei atrás pela mesma rua. Ao longe vi uma garagem eletrônica sendo aberta. Peguei a arma acelerando e tentando fazer a mira. Já gritava para parar. Ele ignorou o aviso e entrou rapidamente não dando tempo de atirar. Gritei as coordenadas no rádio para que soubessem onde eu estava e fui à luta. Não era hora para ficar pensando no que fazer. Era entrar em ação agora ou poderia perder a chance de pegá-lo.

CAPÍTULO XIX

O filho da puta tinha um segundo plano o tempo todo. Deve ter escolhido viver nessa casa por ser perto do último crime. Eu pensava essas coisas enquanto ele já havia entrado e a garagem se fechava bem na minha frente. Se eu não entrasse agora, mesmo correndo perigo de levar um tiro ou outra coisa ele conseguiria fugir por uma outra saída. E aposto que tinha uma outra saída. Atirei-me, rolando por baixo do portão que quase fechou na minha cabeça. Senti a velha dor nas costelas de outros carnavais. Não havia tempo pra pensar em dor nem na idade que já não me permitia certas extravagâncias. Ele entrara rapidamente e eu corri atrás. 
Não era a tática certa ir de encontro ao inimigo dentro de sua própria toca sem tomar algumas providências. Uma delas seria esperar reforços. Uma pessoa pra te cobrir enquanto você encara o criminoso parecia a saída mais sensata, o problema é que eu já estava louco da vida e gritava sem parar que era a polícia e que ele deveria se render. Não queria esperar por ninguém. Ele escaparia, iria usar outro disfarce e ficaria muito mais complicado de encontrá-lo. Talvez isso nunca acontecesse. Ele não teria essa chance comigo. Por outro lado poderia levar um tiro ou algo pior. Estava jogando e pagando alto pra ver.
Adentrei a casa sem maiores cuidados mesmo sabendo que seria muito arriscado. Apurei os ouvidos e acostumei os olhos à penumbra do interior de janelas fechadas. O chão velho, feito de madeiras compridas, me indicou a direção. Ouvi seus passos logo acima de mim, no andar superior indo até o fundo do corredor do sobrado e batendo uma porta.
Eu também estava num pequeno corredor no andar térreo da casa. Era estreito, com uma escadaria lateral de madeira que me levaria a toca do assassino. Tudo era escuro e antigo ali dentro. Essas casas velhas têm seus próprios sons e tanto a alvenaria como as madeiras se acomodam fazendo ruídos fantasmagóricos. Com certeza ele ouviria meus passos mesmo que eu estivesse só de meias. Era um convite para uma emboscada. Aceitei de bom grado o desafio e subi furtivamente os degraus.
Olhei o corredor que começava no final da escadaria antes de caminhar para o último degrau. O lugar era perfeito pra me foder. Havia entre mim e o assassino mais quatro cômodos. Todas as portas estavam abertas menos a do final do hall. Uma atrás da escada que eu podia ver de onde estava. Um quarto amplo e vazio. Havia ainda a porta que levava ao cômodo do meu lado esquerdo e uma que devia ser o banheiro do lado direito. No final do corredor a única que permanecia fechada.
Ele poderia saltar de qualquer uma delas em cima de mim com seu bisturi afiado e, caso meus reflexos falhassem, seria minha despedida desse mundo. Ou poderia estar me esperando dentro do quarto fechado. Poderia me dar um tiro também. Outra incógnita que poderia me levar à morte. Mais uma vez meu lado racional ainda tentou me avisar a não ir em frente e esperar. Era só ficar ali. Ele estava encurralado. Fiquei assim por muito tempo. De arma na mão esperando que ele saísse correndo para me atacar ou simplesmente se entregasse.
¾ Saia daí com as mãos pra cima! ¾ Quebrei o silêncio. ¾ A casa está cercada. ¾ Blefei tentando um último truque para evitar o confronto direto que, no fundo, eu temia.
Estava claro que ele não cairia tão facilmente no meu engodo e mesmo que a casa estivesse realmente cercada duvidava que ele fosse sair dali. Eu teria que tirá-lo da toca. Me assustava o fato de que eu não estava lidando com um rato numa ratoeira e sim com um tigre de garras muito afiadas e que não se amedrontava. Pelo menos não mostrou perder a calma em nenhum momento até aqui.
Cauteloso, fui caminhando e parando antes de cada porta. Amaldiçoando aquele piso de madeira que gemia a cada passo.
Não sabia o que iria encontrar dentro dos quartos. Encostava na lateral e entrava de surpresa evitando até de respirar.  Fiz isso nos três cômodos e atrás dessas três portas não havia nada.
Faltava a última que se mantinha fechada bem na minha frente. Agora ele estava encurralado.
O certo era esperar os reforços para entrar. O certo nem sempre é o que queremos fazer. E eu queria colocar as mãos em cima daquele sujeito de qualquer maneira. E ele sabia disso melhor que ninguém. 
Respirei fundo e entrei chutando a porta. Um vulto apareceu na minha frente e, no quarto escuro, não consegui ver o que era. Atirei por instinto e o vulto caiu.
A entrada de um pouco de luz de fora me mostrou que era um manequim. Ali estava cheio de manequins com perucas e roupas variadas. Um lugar assustador.
Aproveitando a minha distração o rapaz enterrou a faca entre as minhas costelas. A dor me fez perder o equilíbrio e cai já sangrando muito. Minha arma foi parar embaixo da penteadeira e eu não conseguiria alcançá-la. Meu braço esquerdo começou a formigar imediatamente. A respiração falhava, sem contar a dor que era como se eu respirasse fogo. Meus pulmões estavam em brasa.
O assassino se aproximou cautelosamente. Eu não conseguia sequer respirar, quanto mais me mexer. O bisturi havia perfurado um dos pulmões. Mesmo assim ele não dava um passo em falso. Esperou para ver se eu estava fora de combate para dar o golpe de misericórdia.
Pude ver seu rosto. Um rapaz jovem. De rosto barbeado, sério, com uma beleza quase feminina. Parecia muito compenetrado no que fazia. Ajoelhou-se em cima de mim segurando meu queixo. Eu tentava me desvencilhar. Ele era forte e o sangue que perdi, junto com a dor me enfraqueceram muito. Colocou o joelho em cima do meu braço bom. O outro não podia oferecer resistência.
Sabia que ele iria cortar a minha garganta como fizera com todos os outros.
Olhou-me com seus olhos frios e senti o horror se aproximando. Aqueles olhos eram de quem poderia matar qualquer pessoa que estivesse em seu caminho.
Tentei manter a dignidade e esperei o golpe de olhos fechado. O que ouvi foi um tiro seguido de um baque surdo do seu corpo caindo ao meu lado. Abri os olhos e vi o rapaz ainda me encarando, porém, sem vida. Levantei a cabeça e lá estava Cláudio na porta, de arma fumegante na mão. Ele gritava alguma coisa mas eu já não podia escutar. O mundo estava em câmera lenta e escurecendo vagarosamente.

CAPÍTULO XX

A noite negra nos cobria com nuvens e névoas enquanto meu barco navegava sobre um mar revolto. Espumas vermelhas o circundavam formando cristas agourentas nas enormes vagas que nos empurravam como um brinquedo.
Tentava controlar a embarcação no meio da tempestade e, no convés, pessoas com capas de chuva amarelas se esforçavam na amarração das velas. A iluminação dos holofotes da embarcação falhava e piscava não deixando que eu conseguisse fixar as imagens.
Gritava para eles saírem dali. Uma onda poderia jogá-los naquele mar de sangue diretamente para a morte. Meu desespero aumentou muito quando os rostos da minha pequena tripulação foram revelados. Um dos marinheiros era o Cláudio e o outro a Cristina. Como se não bastasse naquele momento eu tive a certeza que minha filha também estaria em algum lugar no barco. Não podiam me ouvir. O barulho da tempestade se sobrepunha a tudo. Eu não podia largar o leme para avisá-los. Aquelas eram as tão sonhadas férias que nunca tivemos sendo transformada num pesadelo.
Uma onda veio e os varreu do tombadilho para o fundo daquele mar vermelho e horrendo. Larguei o leme e corri para o convés me esforçando pra não ser jogado no mar também. Eu gritava por eles e por Helena. Nenhuma resposta. A iluminação do barco estava falhando cada vez mais e numa de suas passagem pela proa vi a silhueta de uma menina segurando a mão de um homem alto.
Queria chegar até eles. Gritava para a pessoa não largar a minha filha. Ele a segurava frouxamente. As ondas atrapalhavam e não me deixavam aproximar. Foi quando vi quem estava de mãos dadas com minha filha.        O assassino a mantinha perto de si no meio da chuva e me olhava com aqueles olhos sem compaixão.
Pegou a menina no colo enquanto me desesperava tentando chegar aos dois. Quando se encontravam ao alcance das minhas mãos o assassino foi mais rápido e se atirou junto com minha filha ao mar antes que eu conseguisse segurá-los.
O ar me faltava no peito achei que fosse morrer e cair também. Minha vontade era me atirar atrás deles mas não pude tudo se apagou sem que eu soubesse o que estava acontecendo.

CAPÍTULO XXI

Primeiro foi um sono de morte. Sem sonhos, sem sensações, apenas um vazio. Depois vieram os malditos pesadelos e os delírios, misturados a febre que as várias infecções que se sucederam a minha quase morte. Lembro-me de dores horríveis que sentia mas não podia gritar, nem sequer me mexer, que eram aliviadas de tempos em tempos e eu voltava ao sono de morte. Cortesia dos remédios a base de morfina.
Estava delirando, perdido em um desses pesadelos, quando alguém veio me tirar das brumas onde me encontrava. A primeira coisa que senti foi uma mão apertando a minha. Eu voltava a realidade aos poucos. Abri os olhos lentamente ofuscados pela luz. Ainda não sabia que essa era a primeira vez em dias que eu recuperava a consciência.
Ofuscado e confuso reconheci o rosto de Cláudio. Era sua a mão que me apertava. 
¾ Você quer quebrar o que sobrou dos meus ossos? ¾ Falei com o sopro de voz que conseguia emitir.
Cláudio abriu um sorriso.
¾ Então a bela adormecida resolveu acordar?
 Tentei balbuciar alguma coisa. Minha voz era menos que um sussurro inteligível.
¾ Espero que você não tenha me beijado...
Ele continuava com sorriso, estava visivelmente emocionado com o meu retorno ao mundo dos vivos.
Fechei os olhos que estavam pesados. Tentei ficar acordado, queria perguntar um punhado de coisas. Não havia forças em mim.
Cláudio largou minha mão me ajeitou no travesseiro.
¾ Calma. Você ainda está muito debilitado. Teremos tempo de conversar depois. Eu não salvei você do assassino pra te ver morrer no hospital. Agora, descansa.
Uma enfermeira entrou no quarto e me deu uma injeção e comprimidos. Apaguei novamente.

CAPÍTULO XXII

Quando acordei pela segunda vez já me sentia pouco melhor e conseguia falar. Notei que minha voz não saia. Minha traquéia estava muito machucada. Como se alguém tivesse tentado me estrangular. Eu tinha ficado entubado por alguns dias e era isso que eu sentia. Meu cérebro começava a dar sinais de funcionamento.
Dessa vez Cláudio estava dormindo numa cadeira ao lado da cama.
¾ Cláudio? ¾ Chamei meu parceiro com o fio de voz que me restava.
¾ Água, por favor.
Ele acordou assustado e sonolento. Pegou o copo e colocou metade. Bebi com sofreguidão e pedi mais.
¾ Não posso, meu velho. Você tem que ir devagar. Ficou muitos dias entubado, ordens médicas!
¾ O que houve comigo?
¾ Você deu um puta susto na gente!
Continuei fazendo cara de paisagem.
¾ Você ficou entre a vida e a morte por dias e depois delirou por mais uma semana. ¾ Ele queria me contar tudo de uma vez. Pedi com gestos pra ir com calma
¾ Desculpe, vou devagar!
¾ Isso, por favor. ¾ Gemi as palavras mais do que falei.
Cláudio me deu um pouco de água e continuou:
¾ O cara te acertou firme e por muita sorte não te matou. Ele cortou uma artéria e perfurou seu pulmão. Você vai ficar pelo menos uns dois meses fora de circulação. A boa notícia é que você vai viver depois disso. Um caso raro sobreviver a esses ferimentos. As gordurinhas a mais que você ganhou nesses anos de polícia te salvaram.
       Quase ri. A dor não deixou.
       ¾ Estou há uma semana aqui? ¾ Sussurrei novamente.
       ¾ Não, Dumas. Já vamos pra 18 dias. Uma semana foi só de UTI.
       ¾ Ontem eu vi a Cristina ou foi um sonho?
       ¾ Ela veio algumas vezes. Estava preocupada contigo.
¾ Muita gentileza da parte dela.
¾ Também achei.
       ¾ E Helena?
       ¾ Está ótima. Linda e crescendo.
       Tinha tantas perguntas para fazer. Me faltavam forças.
       ¾ Você não tem vontade de recomeçar?
       ¾ Recomeçar o que? ¾ Perguntei já sabendo qual seria o tal recomeço.
       ¾ Recomeçar com a Cris, sua filha, ter uma vida normal de novo?
       ¾ Elas estão muito bem sem mim, e eu fico aliviado com isso.
       ¾ Só aliviado?
       ¾ Não preciso do peso de uma família. Foi um erro, Cláudio. Sua irmã não tem nada com isso. ¾ Fechei os olhos esperando a dor do esforço de falar passar. 
Novamente a enfermeira entrou no quarto. Dessa vez acompanhada de um médico.
       ¾ Eis um rapaz de sorte. Você tem algum parentesco com gatos? Tem sete vidas. ¾ Disse o doutor já pegando no meu pulso. ¾ Rompimento de artéria, infecção generalizada e mesmo assim parece que vai sair daqui em poucos dias. ¾ Terminou o monólogo com uma pergunta:
       ¾ Como está se sentindo?
       ¾ Parece que um elefante pisou no meu peito. ¾ Balbuciei.
       ¾ Não, foram apenas 15 cm de lâmina. O estrago foi grande mas não o suficiente.
       ¾ Quanto tempo ele ainda vai ficar aqui doutor? ¾ Já tinha até me esquecido que Cláudio estava na sala.
       ¾ Logo deve ter alta. A melhora daqui pra frente será rápida, se ele cooperar, é claro. ¾ Disse auscultando meus pulmões. ¾ O pior já passou. Agora vamos deixá-lo repousar.
       ¾ É meu amigo. Dessa você se livrou. ¾ Apertou minha mão. Eu queria dizer o quanto era grato mas não conseguiria exprimir em palavras. Acho que nem saberia quais eram.
       Nos despedimos e ele falou despreocupadamente que voltaria para me contar o que havia acontecido. Ele devia estar adivinhando que a minha convalescença traria de volta a curiosidade também.

CAPÍTULO XXIII

       No outro dia, recebi a visita de Cláudio e com ele muitos jornais e revistas que falavam do caso “Madame Guilhotina”. Ele estava louco pra me contar a história toda e eu curioso para saber o que aconteceu. Preferiu fazer de outro jeito:
       ¾ Aqui estão os jornais que tratam do caso. Tem um monte de fotos sua. Te dão tratamento de herói. ¾ Começou ele se divertindo. ¾ Sei que você vai ficar mais uns dias nessa pasmaceira, então resolvi te trazer umas leituras divertidas.
¾ Herói? Desajeitado como eu fui? Irresponsável seria muito mais correto.
       ¾ A mídia precisa de heróis e bandidos. Foi você que me ensinou. E você e a Madame Guilhotina são um filão que rendeu muito. Estão falando do caso até hoje.
       ¾ Deixa eu ver.
       ¾ Tome estes. ¾ Colocou alguns sobre a cama. ¾Tem este que até faz supostas conexões entre você e o assassino insinuando que seriam amantes. Esse é o melhor de se ler. ¾ Riu me jogando outros jornais.
       ¾ Nenhum deles contam a história que realmente aconteceu, não é?
       ¾ Adivinhão.
¾ E quando você vai me contar a verdade?
       ¾ Boa pergunta! ¾ Tirou de sua mala um envelope recheado. ¾ Aqui está o relatório, fotos das provas, cópias das coisas que encontramos na casa do assassino, fotos da casa e do próprio assassino.
       Olhei aquele amontoado de coisas e deixei os jornais de lado. Não queria saber o que foi passado para a mídia, queria conhecer a história daquele rapaz e descobrir o por quê dos assassinatos cruéis.
       ¾ Está tudo aqui?
¾ Tudo o que investigamos nesses dias em que você ficou fora do ar. Recolhi até as coisas menos interessante. Sei que você é minucioso e gostaria de ter tudo nas mãos.
       ¾ Como assim?
       ¾ Algumas coisas você vai ter que deduzir e me contar depois que eu mesmo não entendi tudo o que aconteceu.
       ¾ Vocês não descobriram tudo?
       ¾ Descobrir tudo é uma pergunta retórica?
       ¾ Como assim?
       ¾ Descobrimos o que foi possível. Leia essa droga que você mesmo vai tirar suas conclusões. ¾ Ele tinha razão. Primeiro eu tinha que conhecer os fatos que aconteceram durante minha “ausência”.
       ¾ Vou nessa. Passo aqui pra te levar de volta pra casa. ¾ Riu, achando graça da situação. ¾ Vai ter que arrumar outro jeito de passar o tempo, você não volta por pano verde tão cedo. A sinuca, a vodka e as mulheres vão ter que esperar.
       Antes de sair apertei sua mão.
       ¾ Obrigado por não desistir de mim. ¾ Era a primeira vez que eu falava assim com Cláudio. Senti que ele ia se emocionar mas conseguiu se safar antes.
       ¾ Que nada parceiro.
       Antes de sair me disse na porta tentando se refazer.
       ¾ Bom ter você de volta! Você é um puta dum chato... ¾ Rimos os dois e ele me deixou com as recordações do crime.
       Abri o pacote e espalhei todas as coisas no colchão. Eram fotos, xerox de papéis recortados, recortes de jornais antigos, xerox de certidões, cópia de um caderno de anotações do próprio assassino numa caligrafia precisa como seus cortes e outras coisas. Um relatório também, ao estilo do Cláudio, sucinto demais para o meu gosto.
Agora que todas as pistas estavam à mão e era hora de montar o quebra-cabeça.

CAPÍTULO XXIV

       Dormi muito pouco aquela noite pensando na história que aqueles papéis contavam. Uma história de amor e vingança. De ódio alimentado a fogo brando e da ira ritualística detalhadamente planejada.
       Marcos Arshtain era seu nome. Filho adotivo de Humberto Arshtain, um psiquiatra dono de um currículo invejável que trocou uma vida de glórias acadêmicas para cuidar de um asilo no interior do estado.
       Marcos nasceu nesse asilo. Sua mãe era uma das internas.  Aparentemente chegou até ali encaminhada pela assistência social da cidade. Não tinha documento nenhum. Não falava e ainda por cima grávida de aproximadamente cinco meses. Essas informações vieram diretamente do diário do médico. Era muito cuidadoso com relação aos seus pacientes, coisa muito rara de acontecer nesses lugares nos meados dos anos 70. Pareciam muito mais porões de torturadores que casas de saúde.
        O fato é que o médico acolheu sua paciente sem nome e sem endereço e cuidou dela. Não conseguiu muitas melhoras. Ela continuava no seu estado vegetativo. Mesmo assim por um desses milagres da natureza teve o filho que foi adotado pelo médico.
       O Doutor Humberto era um senhor de mais de 60 anos quando isso aconteceu. Viúvo e sem filhos, provavelmente achou que era hora de dar continuidade a sua linhagem. Esse garoto cresceu, estudou e se formou em uma das melhores faculdades de medicina do país. Daí seus conhecimentos médicos e uma cultura peculiar.
       Quando Marcos completou 25 anos seu pai adotivo morreu deixando o rapaz em invejável condição financeira. Nesse momento acabam todos os indícios de sua existência. Parece que ele desaparece junto com o pai.
       Sua mãe era Maria Rita da Costa Machado. Num de seus raros momentos de lucidez contou sua história para o médico que a descreveu no diário mas manteve longe do Marcos até a hora da morte. Só então ele pode ler os escritos e saber quem era sua mãe.
       Maria era de uma família pobre. Filha do homem assassinado em sua residência, o tal faxineiro, na realidade a primeira vítima, aposentado e viúvo João da Costa Machado. Seu pai trabalhava no colégio onde estudaram todas as outras vítimas. Acabou ganhando uma bolsa de estudo para a menina. Ela devia estar numa classe uns dois anos abaixo da classe dos rapazes.
       Era apaixonada por um deles, para ser exato o senhor Pedro. O último a morrer.
O médico relatou no diário a história da moça segundo ela própria havia contado e resumia-se a isso:
       Os quatro rapazes planejaram uma festa de despedida do colégio e convidaram a menina pobre que, deslumbrada com a chance de ir a uma festa dos “ricos”, se arrumou com a melhor roupa e foi ao encontro dos rapazes. Pedro a embebedou e todos eles violentaram a moça.
       Ela se sentiu envergonhada demais. Sabia que seu pai era um desses machões que não acreditariam na sua inocência. Acreditava sim na sedução diabólica das mulheres. A moça acabou escondendo o caso de todos. No Colégio a história vazou e quando ela se viu grávida sua vida desmoronou.
       Aqui começam todos os problemas. Seu pai a expulsa de casa. Posso ver a cena triste. Ele deve ter chamado a coitada de puta e outras coisas indecorosas que não se deve falar para uma filha. Estava quase achando que ele mereceu a morte que teve.
       Correu então para Pedro que a rejeitou do mesmo modo. Como é que um cara de outra posição social iria se envolver com a filha de um faxineiro? Foi nesse momento que a pobre moça deve ter pirado. Ela conta que quando ele lhe ofereceu dinheiro pra tirar a criança alguma coisa dentro dela se rompeu.
       Imagino uma menina de 15 anos passando por tudo isso no final dos anos 70. Ela se perdeu e rodou sem rumo até ser entregue na clínica do Doutor Humberto. O tratamento parecia estar dando resultado, o médico se culpa por não ter contado a ela, por egoísmo, e aposto que isso iria acompanhá-lo pelo resto da vida, que seu filho sobrevivera. Falou apenas que ele morrera no parto. Esse fato contrariava toda a vida do homem. Um médico dedicado e capaz. Todos cometemos erros, só mostrando que somos humanos e fadados a falhar uma hora ou outra.
       Não houve tempo para continuar o tratamento. Ela se matou no dia seguinte. Em seu quarto com uma dose maciça de medicamento roubado.
      
       Estou contando uma história baseada em diários e outros documentos que o Cláudio me trouxe. Muitas dessas informações não serviriam como prova e nem teríamos como comprovar sua autenticidade uma vez que todos os envolvidos estavam mortos e os mortos ainda não falam. Apenas junto as peças que me foram oferecidas.
      
Para não correr o risco de perder a guarda do menino o médico deve ter simplesmente ignorado as informações de Maria e ela acabou enterrada como uma indigente qualquer.
       O menino cresceu, se formou, recebeu a herança e com ela toda sua triste história. Não sou psiquiatra mas posso apostar que ele também enlouqueceu como sua mãe. Só que não era um pobre adolescente. Era um rapaz instruído, dono do seu nariz e com uma boa grana no banco. Não levou mais que alguns meses para colocar em prática seu plano de vingança. Creio que o jeito como ele assassinou suas vítimas é que dão o toque de uma pessoa fora de seu juízo perfeito. Primeiro por se vingar com as próprias mãos. Com a grana que tinha podia ter contratado um profissional pra fazer o serviço. Segundo a premeditação minuciosa, os disfarces, as pistas deixadas para a polícia. Tudo leva a crer que seu plano fora realizado a perfeição. Até sua morte. Tudo para revelar pecados tão bem guardados.
       Ele se muda para a capital já com outra identidade e aluga a casa na Vila Mariana. Rompe todos os laços de conhecidos que havia feito até então e se refugia naquela casa com seus disfarces, se adaptando a cada um deles até que tivesse várias identidades tanto masculinas como femininas. É provável que ele gostasse mais das suas personagens femininas. Um traço do seu caráter que não podemos provar, apenas deduzir. E não é difícil fazer essa ligação já que todas as pessoas que provocaram a infelicidade de sua mãe eram homens ele pode ter criado dentro de si uma aversão ao masculino.
       Havia uma única foto de mulher em suas coisas, provavelmente de sua mãe. O doutor Humberto deve ter tirado o retrato durante o tratamento e acabou guardando no seu diário. Apesar da aparência maltratada de doente ela parecia muito jovem e de uma beleza melancólica, dadas as circunstâncias.
       O rapaz descobre toda a história e realmente acredita em tudo. Não põe os fatos em dúvida em momento algum. Não tenta sequer examinar se as coisas se encaixam. Simplesmente acredita naquelas palavras e faz daquilo toda sua razão de viver.
       Cláudio deixa claro no relatório que os vizinhos mal o viam. E nunca conversou com ninguém. As pessoas também deixavam o rapaz em paz, afinal aquele era um vizinho muito comportado. O máximo que se ouvia era o barulho da buzina do entregador de comida japonesa.
       Juntava as peças vagarosamente sorvendo o gosto amargo daquela tragédia particular. Eu estava finalmente entrando na cabeça do assassino e pensando como ele.
       O exílio o deixou incomunicável. Seus conhecidos nem se preocuparam achando que ele estava passando uma temporada na Europa e também não tinha nenhum parente vivo. Minto, tinha um e esse foi sua primeira vítima.
       Matar o avô foi simples. O homem que infligiu tantas dores a sua mãe seria o primeiro a pagar com a vida. Não demorou muito para descobrir onde o velho morava e menos ainda para conhecer seus hábitos. Descobriu coisas tristes como a morte de sua avó que foi pouco depois do seu nascimento. Disseram, as más línguas, que morrera de desgosto por causa do desaparecimento da filha. Descobriu também que o velho continuou sua vida dura guardando dentro de si tudo o que aconteceu. Não consigo imaginar como terá sido o encontro dos dois. Mas o fim todos sabem. Muito fácil e tudo o que restou foi uma pequena coluna nas páginas policiais. Nenhuma pista. Acho que teve a idéia de deixar um rastro depois desse crime. E também deve ter provado o sabor da vingança e gostado de bancar o juiz, o júri e o carrasco.
       Agradeci mentalmente os cuidados que Cláudio teve com a pesquisa. Estava tudo ali bem documentado com datas e pessoas que coincidiam com a história de Maria.
      
       Os outros quatro mortos eram realmente amigos de colégio. Dois deles mantinham ainda relacionamento e formaram uma turma inseparável naqueles velhos tempos. Se a festa e depois o abuso que Maria sofrera houve mesmo não posso afirmar. Eram garotos de 17 anos, bem-nascidos. Era plausível.  Pode ser também que ela tenha inventado a história toda na sua loucura. Só que a gravidez fora real e ela acusa todos como pai da criança sem restrição. Disse claramente nas palavras do próprio doutor que se lembrava de todos eles terem se revezaram e a estupraram mais de uma vez. Tinha bebido e estava tonta demais pra reagir. Apenas sabia o que estava acontecendo.
       Ao ler o diário noto que o doutor procurou escrever atentamente o que sua paciente falava. Depois tirou suas conclusões e entre elas haviam muitas dúvidas a respeito da história. Ele sabia que Maria acreditava naqueles fatos. O que não tinha certeza era se os fatos aconteceram da maneira com que ela os via em sua cabeça. Queria continuar o tratamento e chegar mais perto do que ele considerava que seria a verdade. E só então, com a mulher restabelecida, contar toda a história. Como já disse não houve tempo. As lembranças dolorosas e a falsa notícia da morte do filho foram demais pra ela.
      
       Vamos aos quatro amigos inseparáveis. O advogado Eduardo foi a vítima com quem mais tive contato. Era ninfomaníaco e isso o coloca como suspeito dos fatos. Tentava se curar e isso o colocava ainda mais dentro da lista do possível estupro. Esse vício devia ter lhe causado sérios problemas durante sua vida. Era uma pessoa que poderia ter um deslize como essa festa a que Maria se referia. Um pouco de alguma droga qualquer, um pouco de álcool e muita loucura. As pistas deixadas ainda não eram tão claras. Somente apontavam uma direção. Seguimos o caminho e acabamos topando com outras pequenas loucuras e grandes contravenções. Primeiro a história do Alberto e seu caso de divórcio difícil. Essa pista foi verificada pelo Cláudio. Era mesmo um caso difícil já que o cara tinha um caso com outro homem há mais de 10 anos e mantinha a família como fachada. Sua mulher queria sua cabeça. Nenhum dos dois tinham envolvimento no crime. Foi Alberto que nos colocou no rumo certo ao nos dar a dica do Bahamas. Aqui estão as contravenções institucionalizadas que fogem muito da nossa alçada. Prostituição de luxo. Convivemos com isso desde que o mundo é mundo e não ia ser uma investigação de homicídio que iria melhorar o problema. Lá ficamos sabendo da primeira personagem do Marcos. A bela e mortal prostituta. Ele conhecia bem suas vítimas e sabia que Eduardo não iria resistir.
       Daí para frente a história é a que conhecemos. Depois veio a segunda personagem. A aluna que seduz o professor Demétrius. Um acadêmico mais velho que mantinha um certo charme intelectual.
Nesse caso as pistas já ficaram bem mais claras. Os olhos na gravura apontavam pra um médico. As ligações entre as duas primeiras vítimas seriam rapidamente feitas. O assassino sabia disso e correu antes que pudéssemos alcançá-lo.
       Entra em cena a terceira personagem. Uma enfermeira. Ele entra no hospital com documentos roubados como uma mulher e sai como homem bem debaixo dos nossos narizes. Madame Guilhotina vira Monsenhor Guilhotine. O doutor Carlos estava morto.
       A quarta vítima aparece espontaneamente, em desespero, pedindo ajuda. Chegamos tarde demais pra ajudá-lo mas ainda a tempo de pegar o assassino e parar com os crimes. Não sabíamos naquele momento que os crimes parariam de qualquer modo.
       Pelo grau de tortura a que o senhor Pedro foi submetido era o mais odiado dos quatro.
       Depois, uma fuga louca pelas ruas da cidade e a minha desastrada atuação final com Cláudio me salvando no último momento.
       O Pedro morreu pouco depois que fui atrás do assassino.  Meu parceiro sai correndo quando ouviu pelo rádio que eu iria entrar na casa sozinho. Uma viatura já se aproximava do local e foram em meu auxilio. Sua presteza salvou minha vida.

       Ainda acharam um passaporte em seu verdadeiro nome escondido na casa. Talvez o assassino pretendesse usá-lo numa possível fuga. No caso de não conseguir, deixou tudo bem a vista para que descobrissem todos os documentos e chegassem as conclusões que estou chegando.
       Todas as peças que faltavam estavam escondidas dentro daquela casa.

POSFÁCIO

       Passei o meu último dia no hospital lendo os jornais e revistas que tratavam do caso. Foi uma atitude mórbida. Me encolhi numa triste melancolia e fiquei lambendo minhas feridas e as feridas de todos esses mortos.
       Alguns repórteres criaram histórias espetaculares. Nenhuma chegou perto do que nós sabíamos. Dessa vez Cláudio tomou o cuidado de ocultar muitas coisas para preservar o pouco da dignidade das famílias envolvidas que não tinham culpa nenhuma desses antigos pecados.
Quando acabei de ler tudo entendi por que Cláudio me disse que algumas coisas teriam que ser resolvidas por dedução. Não havia provas oficiais que comprovariam a história e as pessoas que poderiam falar estavam mortas.  O que havia acontecido há muitos anos não tinha deixado registro nem memória. Teria que acreditar nas palavras de Maria, transcritas pelo seu psiquiatra.
       Eram muitas mãos escrevendo uma mesma história, muito tempo passado. Exageros e erros poderiam ter sido cometidos no caminho.
       A verdade é que nunca saberemos o que realmente aconteceu e o que levou algumas pessoas a atos tão desesperados e violentos.
Essa é a minha versão. Baseada em provas e fatos, ainda assim apenas uma versão plausível. Montei o quebra-cabeça como achei que deveria ser montado. Outras pessoas poderiam mudar peças do lugar e teriam um outro desenho, como os repórteres que escreveram tantas versões.
Pensei em todos esses mortos e na minha sorte por estar vivo e me recuperando. Com uma pontinha de medo da minha segunda vida. Ansioso por começar de novo. Na minha idade começar de novo não é o lugar-comum. E dessa vez eu não poderia me dar ao luxo de errar. Eu encarava todas essas mortes como minha chance de voltar a ser uma pessoa de novo e não um estranho obcecado por crimes do passado.
                                                                                                                                                                                          FIM 

Postagens mais visitadas