SOBREVIVENDO NA INDEPENDÊNCIA – Um baterista chamado “Lips Like Sugar” - Fim dos anos 80.

"Lips Like Sugar"

No final dos anos 80 a banda tinha acabado. O legado era uma demo com músicas mal gravadas e muitas brigas. Rancores de todos os lados, frustração dos anos perdidos. Quando a poeira baixou, Paulão e eu marcamos de conversar, éramos amigos, não havia motivo para não nos falarmos. Estava difícil ficar sem tocar, então resolvemos voltar como uma dupla de violão, voz e gaita. Na primeira apresentação choveu tanto que tinha um rio passando no meio do bar com a plateia recorde de duas pessoas. Quando parecia que havia chegado ao fundo do poço a gente dava um jeito de cavar e afundar ainda mais.
Nesse momento doloroso apareceu uma solução paliativa – que viria a se tornar definitiva – de onde eu menos esperava. Maurício Nóbrega, amigo da faculdade (sim nós fomos pra faculdade!) falou que tinha um baterista pra tocar com a gente. Marcamos um ensaio. Mario “Lips Like Sugar” Sérgio, apareceu para um ensaio e levou junto Fabiano Pimenta. Eles tocavam numa banda chamada Melancia Atômica, animando as festas regadas com o drink do mesmo nome.
Fabiano Pimenta, Lips e eu numa das raras fotos com os três juntos.
Melancia Atômica era uma bebida refrescante e altamente alcoólica. Abre-se um pedaço da melancia, tira um pouco da fruta e completa-se com vodka. Canudo à vontade e esta pronto. A banda não era lá essas coisas, mas quando o consumo da bebida aumentava, ela ficava bastante divertida com todo mundo cantando junto.
Lips é o apelido do Mario Sérgio. A galera não perdoa nada e seus lábios avantajados foram motivos da piada que virou marca registrada dele. “Lips Like Sugar” é o nome de uma música famosa do Echo and The Bunnymen.

Voltando ao Lips e Fabiano. Eles vieram e tocamos algumas músicas. O Lips já estava um tanto alterado e bebeu mais um bocado durante o ensaio. A gente já tinha tocado com nove bateristas diferentes e o Lips era o pior deles. Acabou que o Lips veio fazer o teste, mas quem passou foi o Fabiano. Eu insisti com o Paulão pra dar uma chance pro “Gordinho”. O argumento que usei na época foi que ele podia ser ruim, mas bebia pacas e tinha alguma coisa nele que eu via com bons olhos. O Lips era um autodidata. Aprendeu bateria enquanto convalescia de uma perna quebrada. Usava duas agulhas de tricô para coçar dentro do gesso e acompanhar músicas que ouvia, servindo de baquetas. Achei que ele tinha muito pra evoluir. O caso é que os dois foram ficando. Nós adaptamos as músicas para o jeito tosco e reto do Lips tocar e isso influenciou demais nas produções dos dois primeiros CDs. Mas essa é outra história.
O Celso tentou voltar nesse meio tempo e tive que tomar uma atitude drástica para impedi-lo de reassumir os vocais. Eu tinha claro na cabeça que o Paulão tinha que cantar, apesar do próprio estar relutante. A briga foi feia e custou muito ao Paulão. Criou uma inimizade entre os dois irmãos que até hoje provoca crises na cabeça do velho e na minha também. Carrego muitas culpas nesses trinta anos. Muitas mesmo e vou falar delas aqui no devido tempo. Fazer as pazes com o passado não é uma coisa muito fácil.
O importante é que a gente tinha de onde recomeçar. A gente marcava um churrasco e ensaiava com a presença dos amigos, meu irmão levava uma galera, os irmãos do Fabiano vinham e traziam mais pessoas que ouviam e davam uns pitacos. Isso servia também para lotar os poucos shows em buracos obscuros que a gente se metia.
Os churrascos e shows pequenos começaram a ficar concorridos e a opinião dessa plateia seleta acabou nos empurrando para o estilo de rock’n’roll simples, com pitadas de blues e letras sacanas. O Paulão viu que aquilo funcionava e adotou para a banda. A formação ficou bacana com o Paulão assumindo os vocais, baixo e gaitas, Fabiano e eu dividindo guitarras e baixos e o Lips na batera.
Foto do Madame Satã
O primeiro show bacana que me lembro com essa formação é de 1990 no Madame Satã. O lugar tinha passado por reforma e o palco era na parte superior. Foi a primeira vez que tocamos para um público diferente e agradamos. Parecia que finalmente a gente começava a acertar um caminho. Quatro anos depois, uma nova década e muita coisa pela frente.

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