SOBREVIVENDO NA INDEPENDÊNCIA - UMA GAROTA CHAMADA CYNTHIA, PRIMEIROS SHOWS E MUITOS BATERISTAS (ANOS 80)

Foto da primeira formação das Velhas tirada por Márcia Lima (1988)
Uma de nossas primeiras apresentações como uma banda em 1986 foi em um palco grande, montado em cima dos vestiários do Colégio Santo Agostinho, na Vergueiro em São Paulo. Tinha um amigo baterista chamado Fábio que estava anos luz na nossa frente e tocava metal. Ele tinha um equipamento legal e pegou outras coisas de amigos e assim montamos um espetáculo para o colégio. Foi um dia de muito trabalho. As duas bandas tocaram e a galera curtiu os shows e a festa. Um pequeno festival. Os padres e diretores da escola não ajudaram, também não atrapalharam. Hoje vejo que foi um ato de confiança da parte deles. Nos deram a chance de sermos um pouco independentes correndo o risco de alguma encrenca. Talvez eles tenham pensado que aquilo podia, de alguma forma, ser didaticamente bom pra gente. E tudo correu bem para alivio dos padres e professores.
Todos sabem que para banda iniciante é muito difícil arrumar shows. A gente passa por uma espécie de estágio que vai nos colocar dentro do mercado ou não. A gente corria pra todo lado, mandava nossas demos horríveis (que achávamos o máximo na nossa suprema arrogância). Com isso começamos a tocar em um e outro lugar. Sem ganhar nada e muitas vezes pagando o que consumia.  Mesmo sem muitas perspectivas o Paulão continuava a compor.
Cartaz de um show no Espaço Mambembe (anos 80)
Depois de vários lugares, como o quartinho do Rick no apartamento da sua família, a sala da casa da minha família, as Velhas fixaram os ensaios na garagem da casa dos pais do Paulão, na Zona Norte de São Paulo. O pai do Paulão era taxista e militar aposentado. Ficava puto da vida com a barulheira. Com razão, trabalhava a madrugada toda dirigindo e não podia dormir nos sábados com aquelas pestes tocando alto logo às dez da manhã! Entrava em cena a incrível Dona Arenita (mãe do Paulão) que mandava o Seu José dar umas voltas e deixar os meninos se divertirem. Se ela não foi nossa primeira fã, foi a primeira pessoa que nos defendeu. Dona Arenita e Seu José se foram há algum tempo deixando dolorosas tristezas e saudosas lembranças.
Alguns shows começaram a aparecer e uma música se destacava. Uma balada chamada “Cynthia”. Assim mesmo com y e th. Uma letra grande, ao estilo Renato Russo, contando os dissabores de um jovem apaixonado. As nossas músicas dessa época tinham esse teor poético ou eram políticas. Logo a gente ia descobrir que outras bandas falavam dessas coisas de um jeito melhor e que era preciso procurar outros temas. A experiência foi fundamental. Algumas bandas amadurecem e se encontram rapidamente. Não foi nosso caso. Demoramos muito para isso. De qualquer modo, “Cynthia”  foi nosso primeiro grande não-sucesso. E talvez o único dessa fase e dessa formação.

Cynthia - Gravação dos anos 80 com a primeira formação das Velhas

Com o passar do tempo comecei a me desentender com o Celso (irmão do Paulão e nosso vocalista). A gente brigava muito e sempre. Eu achava que ele não podia ser o vocalista, que o Paulão tinha que assumir os vocais. O Paulão era muito fã do Celso, irmão mais velho e com mais experiência, que ele via como um ídolo a seguir. Eu não tinha esses laços afetivos, só via um vocalista que não servia pras Velhas Virgens.
A diferença entre os dois nos vocais ficava clara em shows que o Celso cantava uma grande parte e tinha uma recepção fria da plateia. Quando o Paulão assumia era outra vibe. As pessoas realmente gostavam, nossos blues sujos ganhavam uma outra interpretação que falava diretamente com o público.
Eu não podia acreditar que o Paulão não via o óbvio. Alguém precisava assumir os vocais para a banda andar um pouco. Rick (nosso batera) e Paulão saíam pra beber e levavam o chato aqui a tiracolo (eu não bebia nem ponche naquela época) e ficávamos horas conversando. Eles falavam que eu era boa companhia para beber. Meu guaraná ficava barato e eu parecia mais alucinado que eles. Ficava bêbado por osmose.
Nessas conversas, Paulão, que sempre foi muito bom nas argumentações, me convencia de que o Celso era o cara, que estava tudo certo e logo alguma coisa aconteceria. E as coisas foram acontecendo, não exatamente do jeito que ele previa ou que eu esperava.
A primeira baixa veio de onde menos esperávamos. Rick, nosso baterista diz que vai sair. De todos nós, acredito que era o que tinha mais juízo e mais noção da realidade. Viu que aquele lance de música não era pra ele, não estava levando a lugar nenhum e, pior, estava atrapalhando seus estudos.
Uma das poucas fotos do Rick em shows. Ele ao fundo tocando no Madame Satã.
Rick hoje é um engenheiro muito bem sucedido, com uma carreira, uma família grande e feliz. Ele soube fazer a leitura correta da sua vida e tomou as decisões certas. Nos encontramos até hoje e somos amigos. O Rick é um cara dos mais honestos e batalhadores que conheço. Sempre torceu pra gente dar certo mesmo não sendo mais da banda e, do nosso lado, também acompanhamos com orgulho nosso primeiro batera ganhando o mundo com sua carreira.
Isso já era final dos anos 80. Tivemos milhares do outros bateristas nesse tempo. Gente que entrava fazia dois ensaios e saia. Teve um caso especial que merece o registro. Encontramos um batera chamado Mario que quis tocar com a gente. O problema é que el tinha sido atropelado e ainda estava se recuperando de uma perna quebrada. Ele pegou todos as músicas, fez a "fisioterapia" com a gente, ensaiou o show, tirou fotos (está que está aí embaixo), a gente se maquiava de velhos na época. Na véspera do primeiro show o cara saiu da banda nos deixando na mão. Aquilo derrubou a gente. Foi péssimo.
Na foto: Mario, Celso e Cavalo em cima e Paulão mostrando a língua. Por Marcia Lima.
Ainda tivemos muitos dissabores e poucas alegrias nesse final dos anos 80, mas fica pra uma outra história.



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